0# CAPA 29.4.15

VEJA
www.veja.com
Editora ABRIL
Edio 2423  no 48  n 17
29 de abril de 2015

[descrio da imagem: duas imagens sobrepostas. Na parte posterior, rosto de Lo Pinheiro, em tamanho grande, de perfil, Esta imagem tem diferentes tons de vermelho, que formam crculos concntricos. Bem no meio da cabea de Lo Pinheiro, est foto do rosto do ex-presidente Lula, com expresso sria, olhar para baixo.]
EXCLUSIVO
OPERAO LAVA-JATO
EMPREITEIRO ARRASTA LULA PARA O MEIO DO ESCNDALO
Preso, Lo Pinheiro, da OAS, ameaa contar  Justia o que sabe sobre o petrleo  e seu alvo  o ex-presidente.

[outros ttulos: parte superior da capa]

[foto do rosto, de frente, de Marta Suplicy]
ENTREVISTA
Marta Suplicy: O PT traiu os brasileiros

NARCOESTADOS
Coronel confirma o trfico de drogas e armas entre Bolvia, Venezuela e Ir

[foto do rosto, de frente, de Kim Kardashian]
SIMETRIA FACIAL
A plstica que embelezou ainda mais Kim Kardashian faz sucesso no Brasil.

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1# SEES
2# PANORAMA
3# BRASIL
4# ECONOMIA
5# INTERNACIONAL
6# GERAL
7# ARTES E ESPETCULOS
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1# SEES 29.4.15

     1#1 VEJA.COM
     1#2 CARTA AO LEITOR  LONGE DO NOCAUTE
     1#3 ENTREVISTA  MARTA SUPLICY  O PT TRAIU OS BRASILEIROS
     1#4 LYA LUFT  TEMPOS SOMBRIOS
     1#5 LEITOR

1#1 VEJA.COM

CIDADE CORRUPO
Estima-se que o Brasil perca 82 bilhes de reais ao ano para a corrupo. Mas o que so 82 bilhes de reais? Com o propsito de ilustrar a enormidade do desperdcio, VEJA lana nesta semana, em parceria com a agncia MariaSoPaulo, o game Cidade Corrupo. Nele, cada jogador  convidado a erguer uma cidade inteira usando o dinheiro que todo ano vai para o ralo. O usurio pode equipar seu projeto urbanstico com escolas, hospitais, rede de abastecimento, ruas, estdios, parques e at monumentos. O resultado, que pode ser compartilhado no Facebook, demonstra a importncia de curar a chaga da corrupo.

APOSENTADORIA DO CO-GUIA
O msico Alexandre Reis, morador de So Paulo, percebeu que havia algo errado com seu co-guia, o labrador-fmea Hanna, no dia em que ela o deixou esbarrar em um porto entreaberto em uma calada. No veterinrio, Reis recebeu uma notcia surpreendente: sua cadela, ento com 5 anos, estava ficando cega. Reportagem no site de VEJA conta a incrvel histria de ambos e o que fazer com um co-guia quando ele no pode mais conduzir seu dono.

TERRA DE NINGUM
Um dos principais dutos de desvio de dinheiro da Petrobras ao longo dos ltimos anos, a Refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco, ainda no est pronta. Impedida de contratar as empreiteiras envolvidas na Lava-Jato, a Petrobras teve de confiar a continuidade do projeto a pequenas construtoras locais  e algumas delas, por sua vez, tambm repassam servios. Reportagem de VEJA.com revela a "quarteirizao" em curso na refinaria, que deixa funcionrios sem nenhum vnculo nem garantia trabalhista - e tudo sob a vista grossa da estatal.


1#2 CARTA AO LEITOR  LONGE DO NOCAUTE
     Apesar de toda a pesada carga colocada sobre os ombros dos brasileiros pelos erros passados do governo... Apesar do alto custo dos ajustes recessivos aplicados na economia para corrigir aqueles equvocos... Apesar disso tudo, o Brasil real teimosamente se move na direo certa  e em vrias frentes. Na frente poltica,  motivo de jbilo a aprovao pelo Senado Federal do projeto de voto distrital de autoria do senador Jos Serra (PSDB-SP). A to esperada divulgao do balano auditado da Petrobras, dias antes de se esgotar o prazo legal,  um passo significativo rumo  normalizao das atividades da empresa brasileira, um gigante mundial que extrai 2,3 milhes de barris de petrleo por dia. Trazem o mesmo efeito regenerador os dados mais recentes do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) mostrando uma melhora na criao de postos de trabalho na economia brasileira. Tambm no se pode desprezar o fato de que se tenha estabilizado o ndice Nacional de Expectativa do Consumidor (Inec), da Confederao Nacional da Indstria (CNI). 
     Tudo resolvido, ento? Longe disso. Como um lutador de boxe nas cordas, o Brasil no venceu a luta, mas ganhou um tempo para respirar. O nocaute, que parecia inevitvel, pode resultar em derrota, ou at vitria, por pontos no fim do ano. Os eventos e os dados animadores da semana passada so dignos de nota porque vieram em meio a um mar de ceticismo e pessimismo com os prognsticos para o  ano de 2015. So pequenos avanos, mas altamente significativos. 
     O voto distrital que passou no Senado valer, se confirmado pela Cmara dos Deputados, apenas para as eleies de vereadores em cidades com mais de 200.000 eleitores. Pelo seu efeito de aproximar o eleitor do eleito, diminuindo o abismo entre o povo e o Poder Legislativo, essa primeira experincia de voto distrital no pas, mesmo que restrita a municpios, vai servir de vitrine para a ampliao do sistema aos demais colgios eleitorais. A divulgao do balano da Petrobras, com o reconhecimento dos prejuzos bilionrios impostos pela corrupo e pela ingerncia governamental, permite encerrar um captulo sombrio da empresa.  irrelevante que o Inec s tenha deixado de cair em maro? No  o caso de soltar foguetes, mas  um alento depois de o ndice ter apresentado queda por quatro meses consecutivos. O mesmo raciocnio vale para o Caged, pois, aps trs meses em declnio, o mercado de trabalho fechou o ms de maro com saldo de 19.282 vagas. 
     Fica em secundarssimo plano e restrito ao terreno da especulao se esses sinais positivos da semana passada sero bons para o partido A ou B ou se quem mais se beneficiar deles ser o governo ou a oposio. VEJA acredita que, quando o cenrio poltico e econmico melhora, isso  bom para todos os brasileiros. Ponto. 


1#3 ENTREVISTA  MARTA SUPLICY  O PT TRAIU OS BRASILEIROS
A ex-ministra, ex-prefeita de So Paulo e senadora anuncia sua sada do partido que ajudou a construir e diz que a cpula petista no tem mais outro projeto seno o de se manter no poder.
PEDRO DIAS LEITE

Marta Suplicy foi deputada, prefeita de So Paulo, ministra do Turismo, da Cultura e atualmente cumpre mandato de senadora. Sempre pelo PT, partido em que milita desde o incio da dcada de 80. Trinta e cinco anos, de muitas vitrias e algumas derrotas, um mensalo e um petrolo depois, que descreve como uma "avalanche de corrupo", ela decidiu deixar a legenda a que dedicou metade de sua vida. Marta tem convite de quase todos os partidos polticos do Brasil, mas se inclina mais para o PSB de Eduardo Campos, o candidato morto em um desastre de avio na campanha presidencial do ano passado. Enquanto desenhava estrelinhas em uma folha de papel, Marta falou a VEJA de seus motivos para romper com o PT e de seu "projeto de nao". 

A senhora saiu do PT ou o PT a deixou antes? 
Tenho muito orgulho de ter ajudado a fundar o PT. Acreditei, me envolvi, trabalhei dcadas, com dedicao total. Saio do PT porque, simplesmente, no  o partido que ajudei a criar. O PT se distanciou dos seus princpios ticos, das suas bases e de seus ideais. Dessa forma traiu milhes de eleitores e simpatizantes. Eu sou mais uma entre as pessoas que se decepcionaram com o PT e no enxergam a possibilidade de o partido retomar sua essncia. Respondendo a sua pergunta, estou segura de que meus princpios nunca mudaram, so os mesmos da fundao do PT, os mesmos com os quais criei os meus trs filhos. Agora tenho um desafio, o desafio do novo. Quero ter um projeto para o meu pas. Um projeto em que acredite.  isso que eu vou buscar. 

O que mais pesou na sua deciso? 
O componente tico  muito forte. A decepo foi tremenda. No foi fcil ver os integrantes da cpula do partido na priso. Discordo da maneira pblica pela qual eles foram julgados e sentenciados. O processo judicial pode ter sido perfeito, mas a humilhao pblica que eles sofreram no se justifica. Por essa razo eu no me manifestei durante o julgamento do mensalo. Mas senti que havia um profundo distanciamento do que ns, petistas, queramos para o Brasil. Reconheo o muito que j se fez em termos de diminuio da pobreza e do aumento da mobilidade social. Mas eu percebo tambm que a cpula se fechou e, cercada por interesses corporativistas de certos movimentos sociais e sindicalistas, trabalha apenas para se manter no poder. O PT no tem mais projeto para o Brasil. Se no recuperar seus princpios ticos, da fundao, no voltar s suas bases, se ficar s no corporativismo, o PT vai virar uma pequena agremiao. Teria chance se fosse no caminho oposto, mantendo sua base social, mas incorporando uma classe mdia que ele mesmo ajudou a criar. Mas, se voc perguntar se o PT far o que  preciso para se salvar, minha  resposta  no. 

Houve uma gota d'gua? 
A escolha do Fernando Haddad para ser candidato  prefeitura de So Paulo, em 2012, foi muito difcil para mim. Mas respirei fundo e fiz campanha para ele. Sei que minha participao foi fundamental para a vitria do Haddad. Antes j tinha sido praticamente abandonada na minha eleio para o Senado. Ganhei com enorme dificuldade. O PT fez campanha muito mais forte para o candidato Netinho do que para mim. Ento comecei a pensar no que estava fazendo no PT. Em 2014, meu nome nem foi cogitado para a corrida ao governo de So Paulo, embora eu tivesse 30% das intenes de voto. A vem essa avalanche de corrupo. Engoli muita coisa na poltica. Mas, quando vi que estava em um partido que no tem mais nada a ver comigo, que no luta pelas bandeiras pelas quais eu me bati e que ainda me tolhe as possibilidades  e eu sei que sou boa , a deciso de sair ficou fcil. 

A senhora no viu os sinais da "avalanche de corrupo" no PT? 
No, porque eu nunca participei disso  No tinha a mais leve ideia. Como a maioria dos petistas no tinha tambm. Se voc no estava ali naquela meia dzia, voc no sabia. 

Quando ficou evidente sua sada, a mquina de destruio de reputaes do partido comeou a agir com a acusao de que a senhora, uma aristocrata, nunca foi realmente do PT. Isso magoa? 
Essas pessoas nunca estiveram na minha pele. Dei ao PT uma cara de classe mdia palatvel. Isso abriu outro horizonte, com a adeso de uma classe mdia que no se identificava com o sindicalismo. Se no posso dizer que a inventei, tenho certeza de que contribu muito para a modernidade do PT. Esse tipo de crtica no me afeta. 

A senhora teve um papel de destaque no "Volta, Lula", movimento para afastar Dilma e lanar como candidato o ex-presidente. Por qu? 
Eu tinha certeza de que, se a Dilma vencesse, teria um segundo mandato muito difcil, como est sendo efetivamente. Achava que com o Lula teramos condio de rever com clareza os erros cometidos e, assim, reunir fora poltica para tirar o Brasil daquela situao. A maioria dos deputados e dos senadores preferia a candidatura do Lula pelas mesmas razes que as minhas. Eles s foram mais cuidadosos. 

O rompimento com o PT significa seu afastamento do ex-presidente Lula? 
 preciso saber separar o lado pessoal. Mesmo quando fui impedida de ser candidata, em 2006, no rompi com o Lula. Porque existe uma coisa muito pessoal, gosto muito dele, o admiro. Acredito que ele tambm tenha admirao por mim. Tive uma conversa muito franca com ele no segundo semestre do ano passado e explicitei o que iria acontecer se ele no fosse o candidato. Disse: "Presidente, estou buscando meu caminho". Depois, no nos falamos mais. No  uma questo de candidatura,  de no me sentir mais no ninho. Tem um momento em que voc diz basta. 

Seu descontentamento j era grande. Por que demorou tanto a deixar o governo Dilma? 
Primeiro, o Lula pediu que eu ficasse. Disse que minha sada atrapalharia o projeto. Entenda-se, o projeto de ele ser o candidato. Quando a vitria de Dilma nas eleies foi confirmada, liguei para a presidente, dei-lhe os parabns e disse que estava saindo. Foi uma conversa longa e rspida. Ela pediu que eu esperasse sua volta do descanso, na Bahia. Quando voltou, fui conversar com ela, que me pediu que esperasse de novo, at seu retorno da Austrlia, em 18 de novembro. Concordei. Qual no foi minha surpresa quando, de volta ao ministrio (da Cultura), minha chefe de gabinete avisou que haviam ligado da Casa Civil, por parte do ministro Aloizio Mercadante, pedindo a carta de demisso de todos os ministros. Obviamente ele estava querendo aguar minha sada, para que ela no fosse entendida como na realidade era, um gesto poltico. Imediatamente pedi  minha chefe de gabinete que protocolasse minha carta de demisso, que estava pronta, no Palcio do Planalto. 

Como era despachar com a presidente Dilma? 
At eu comear o "Volta, Lula", foi agradabilssimo. Ela  uma pessoa muito culta. Tem uma vasta cultura,  muito agradvel para conversar. L muito, entende muito de arte, de teatro, conhece profundamente vrios museus. Depois do "Volta, Lula", ela passou a implicar com tudo. 

A senhora fala como se o governo Lula fosse completamente diferente, mas os dois grandes escndalos, o mensalo e o petrolo, floresceram nos mandatos dele. As mculas ticas do PT no pertencem tanto a ele quanto a ela? 
 difcil apontar a responsabilidade de cada um, e no compete a mim fazer essa afirmao. No posso afirmar se Dilma ou Lula sabiam da corrupo. Eles tanto poderiam quanto no poderiam saber, mas, repito, no compete a mim esse julgamento. No caso do governo Dilma ficam evidentes os gigantescos prejuzos ao Brasil provocados pela m gesto. E no s por ela. Mas pelo intervencionismo e pelo autoritarismo. Quem se sente dono da verdade no escuta. No escutar  mortal. Voc pode discordar, mas tem de ouvir. 

 ruim tambm pelo fato de ter uma mulher na Presidncia e que no deu certo? 
Eu sou uma feminista desde o comeo. Sempre achei que uma mulher na Presidncia faria muita diferena. Ainda acho. Mas a questo principal  que o temperamento deixou o gnero em segundo plano. A sensibilidade do gnero feminino faz a diferena na hora de governar. So sculos e sculos cuidando de crianas, dos velhos e dos doentes. A Dilma tem essa sensibilidade, mas o temperamento prevaleceu sobre ela. 

Qual a sua viso sobre o impeachment? 
Sou contra, no vejo nenhum fato objetivo para buscar essa sada. 

Para qual partido a senhora vai? 
Quando estava amadurecendo a ideia de deixar o PT, fui procurada por uma frente formada por PSB, PP, PPS, PV e Solidariedade. Agora, tambm comecei conversas com o PDT. Vrios outros partidos me procuraram. O martelo ainda no est batido, mas  com PSB que as conversas esto mais avanadas. 

Mas esses outros partidos no tm, talvez, os mesmos problemas que a senhora  v no PT? 
No tenho mais 30 anos, tenho 70. No vivo mais de iluses. Sou uma pessoa bastante machucada por toda a experincia partidria, por um sonho destrudo. Vou procurar um partido no qual possa realizar meu projeto de nao. 

A procura comea como candidata  prefeitura de So Paulo em 2016? 
No estou saindo do PT porque quero ser candidata. Mas, para quem foi prefeita de So Paulo e ama sua cidade,  inescapvel interessar-se de perto por todas as questes que dizem respeito ao cotidiano dos paulistanos.  inescapvel no conseguir ficar calada vendo tanta coisa malfeita e prioridades erradas. O prefeito tem de energizar a cidade inteira, o que no vejo o atual prefeito fazer. Haddad  fraco. Eu tinha, em valores de hoje, 30 bilhes de reais de oramento. Ele tem 51 bilhes. Qual a marca dele? Ciclovia?  muito bvio. Todo mundo  a favor de bicicleta, mas isso no  soluo para uma megalpole. 

A senhora julga que foi uma boa prefeita, de 2001 a 2004, em So Paulo? 
Criei o Bilhete nico, os CEUs, escolas de periferia com piscinas e teatros de qualidade. Minhas amigas me diziam que suas empregadas me adoravam e elas mesmas no entendiam muito por qu. A resposta era porque eu me dediquei mesmo com mais afinco a melhorar a vida de quem mais precisava. 

Mesmo assim a senhora no foi reeleita. Por qu? 
Meu grande erro foi achar que ia conseguir fazer tudo em quatro anos. A cidade tem pressa e eu tambm. No final do mandato fiz obras urbanas que, reconheo, foram um martrio para muitos paulistanos. Isso atrapalhou minha reeleio. Deveria ter feito essas obras com mais calma, ocasionando menos transtorno. 

Por que vrias bandeiras histricas que a senhora, pioneiramente, empunhou  por exemplo, a legitimao do casamento gay  no so viveis no Congresso? 
Acho que as pessoas se chocam com as coisas erradas. Veja o caso da novela Babilnia. No primeiro captulo, teve o beijo das lsbicas, achei interessante. Em seguida, a vil, Gloria Pires, deu um tiro a sangue-frio no motorista. Depois, uma outra comeou a achacar algum. Ningum se chocou com a exibio desses crimes. O beijo das mulheres chocou. Que viso de mundo isso revela? Revela que achamos normal a corrupo e o assassinato, mas reagimos contra uma manifestao de amor. 

Quanto sua separao de Eduardo Suplicy influiu na sua vida poltica? 
Alguns me viram como uma pessoa m por ter me separado do Eduardo. Em parte, fui responsvel. Eu me sentia to culpada que no tive condio de fazer minha defesa. Quando no se ama mais algum, a separao  a sada natural. Eu me apaixonei por outra pessoa, no tive medo, paguei o preo, que foi enorme. Ainda por cima era um argentino. O Eduardo se colocou publicamente como vtima em uma situao em que no h vtimas nem algozes. Separei-me do argentino. No o amava mais. Depois conheci o Mrcio (Toledo), que  uma coisa muito boa na minha vida. 

Pessoas pblicas tm direito  privacidade? 
Ter a privacidade devassada  inerente  poltica. Quem no quer pagar esse preo no deve entrar. 


1#4 LYA LUFT  TEMPOS SOMBRIOS
     A grande nau chamada Brasil andou  deriva, girou em redemoinhos, perdeu-se por falta de um timoneiro experiente e firme, inclinou-se para os lados, sofreu com divergncias na tripulao, e os pobres passageiros, chamados "o povo", cada vez mais aturdidos. Ansiosos, sem nada entender, sem ter a quem de verdade recorrer, de repente se encontram numa falsa calmaria. A nau encalhou entre pedras brutas e agora a cerca um denso nevoeiro. Fechado, estranho e ameaador, ele nos recobre e nos deixa irados, assustados ou desanimados. A quem precisamos atingir, abalar, chamar  razo, conclamar para que cumpra suas funes imediatamente e coloque o pas de novo em uma rota confivel, respeitvel, positiva? Os inimaginveis desastres do governo nos ltimos anos trouxeram at aqui esta nau antes admirada, hoje objeto de espanto, dvidas ou chacota nos grandes pases: quem somos ns, o que nos tornamos, ou melhor, o que fizeram e esto fazendo de ns?  
     Quem parecia excessivamente autoritrio j no manda; quem parecia adversrio ganha as rdeas nas mos; quem deveria ser atendido, isto , ns, o povo, continua sendo ludibriado, maltratado, objeto de falcias, de grandes frases ou minsculas aes logo esvaziadas, que no funcionam, como nada funciona direito. 
     Anda tudo muito estranho, disse outro dia um ministro do Supremo, comentando que de repente o no dito fica pelo dito, e vice-versa; o que era errado est certo, e vice-versa. Em resumo, estamos todos perplexos. Tudo  imprevisvel, tudo  possvel, tudo  enganoso, nada de eficaz acontece. Exceto os escorchantes aumentos de preos e de impostos, de obrigaes: cada um de ns, com a conta de luz, o preo do supermercado, da escola, do seguro-sade, da gasolina, paga a conta desse vergonhoso desastre, acrescido do desemprego que comea a se avolumar assustadoramente. E nos pedem compreenso, pacincia. Os preos no esperam, nem o governo pode esperar: precisa que tapemos com nosso sacrifcio os buracos que abriu. 
     Mas no fomos ns  os cidados esgotados no trabalho, suados nos nibus, aguardando por meses, anos um tratamento de sade que teria de ser imediato e bom, ns que no temos escola decente para os filhos e vemos toda uma infraestrutura se esfacelando dia a dia, ns que s obtemos respostas grandiloquentes sobre projetos faranicos inacabados, PACs e PECs falhados to logo surgem  que causamos esse desastre ainda sem contornos claros. E as fortunas de nossos impostos, onde foram parar? 
     Subimos ao convs desta grande nau, buscando alguma paisagem que faa sentido; vemos nevoeiro, escutamos vozes desconexas, sussurros suspeitos, grunhidos repulsivos ou rosnados ameaadores: onde, quem, como, quando? Muitos lderes hesitam, ouvimos conselhos de prudncia e moderao, rouba-se o mpeto das necessrias, legais e pacficas manifestaes. 
     No h praticamente partidos, portanto no h orientao, negociam-se cargos como num mercado persa. Adoecemos de uma confuso generalizada, o desemprego e a misria crescem, e com eles o desnimo e o medo; estamos quase numa guerra civil; o narcotrfico impera; bandos de jovens vagam pelas ruas sem escola, sem esporte, sem orientao; detentos perigosos soltos voltam a matar, adolescentes assassinos fogem a tentativas irreais de "socializao" e livremente estupram, roubam, matam, dizendo "matei porque quis". 
     Quem cuida das famlias desesperadas dos inocentes mortos? Brada-se em favor das famlias dos bandidos presos, o que  justo, mas ns, que cumprimos as leis, que produzimos bens, que tentamos levar  frente este sofrido navio encalhado, por ns quem batalha nesta confusa guerra por mais e mais poder, mais e mais dinheiro, mais e mais imposio de ideologias tantas vezes tacanhas? 
     No tenho as respostas, mas tenho todas as aflies nesta coluna, onde me sinto na obrigao de falar pelos que no tm vez nem voz. No posso, no devo, tambm eu, colorir hipocritamente a falsa calmaria destes tempos sombrios. 


1#5 LEITOR
JOO VACCARI NETO E O PT
Sobre a reportagem "O homem dos presidentes" (22 de abril), cheguei  concluso de que o PT  a Estrela da Morte do filme Guerra nas Estrelas. Ela paira sobre a democracia brasileira como uma grande ameaa. Sabemos onde ela est e o mal que representa. Mas, como a justia sempre triunfa, Srgio Moro "Skywalker", a bordo da nave Operao Lava-Jato, achar o ponto vulnervel da Estrela da Morte e a implodir. 
JOS BALAN FILHO 
Curitiba, PR 

A busca pela integridade moral trouxe o PT ao poder em 2002. Uma das bandeiras empunhadas era a luta contra a corrupo, uma das bases histricas para continuarmos sendo "o pas do futuro". Crescimento econmico sustentado? Ainda parece uma utopia. O partido aperfeioou o que criticava  queria a corrupo institucionalizada, e perptua, a todo custo. Mas parece (para nossa sorte) que um sopro de lucidez avana sobre a nossa sociedade. 
VALQUIR SILVA DOS SANTOS 
Manaus (AM), via tablet 

Tirar Vaccari do caixa do PT  trocar seis por meia dzia. O seguinte tambm  vinho da mesma pipa. 
CURT HEISE 
Blumenau, SC  

O PT se esfacelou, mas a ganncia e a dissimulao dos petistas deixaro uma herana maldita sem precedentes, economicamente de difcil reparao e moralmente indelvel. 
ADALBERTO ALVES DE MATOS 
Barra do Garas, MT 

O cncer da corrupo no governo do PT est em estado terminal de tal forma que o partido comea a perder militantes, no por vergonha do que seus dirigentes e expoentes fazem, mas por medo de perderem as prximas eleies. Acho vergonhoso isso. 
JOS COSTA DE PAULA 
Duque de Caxias (RJ), via tablet 

IMPEACHMENT 
O senador Acio Neves e o PSDB esto corretos em apoiar o impeachment de Dilma Rousseff, porque esse governo no tem mais condies de continuar ("Os tucanos sobem o tom", 22 de abril). No h mais apoio suficiente para a governabilidade, devido aos graves erros de percurso, acentuados pelo fato de o PT estar no poder h doze anos e pouco ter feito. Os poucos avanos se devem graas  estabilidade conquistada aps o Plano Real, de Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso, e  garra dos empresrios, produtores rurais e trabalhadores brasileiros. Nas condies atuais, no h como governar. O Brasil tem pressa porque seus muitos problemas so graves.  semelhante ao que ocorre em uma empresa: se o presidente j no consegue comand-la e comea a atrapalhar, os acionistas o dispensam, para a continuidade dos negcios. 
PEDRO RONALDO PEREIRA 
Florianpolis, SC 

Os tucanos cometem um grande erro ao propor o impeachment da presidente Dilma Rousseff. De r, Dilma passa  condio de vtima "da elite e dos golpistas"  isso  um prato feito para Lula, cuja estrela apagada pode brilhar, com chances em 2018. 
JOS MEIRELLES 
So Paulo, SP 

O desastroso governo Dilma perdeu a referncia, a credibilidade e se acha sem idoneidade moral. 
OSVALDO ALVES FONTENELLE 
Goinia, GO 

KTIA ABREU 
A entrevista com a ministra da Agricultura, Ktia Abreu ("A sada  pelo campo", 22 de abril),  enriquecedora no complexo momento que o Brasil atravessa. Quando ela afirma que "os problemas de infraestrutura que emperram o setor (agronegcio) podem ser resolvidos em cinco anos", vem automaticamente a constatao: no momento em que a sociedade brasileira  convocada a "salvar" o pas e atingir o equilbrio econmico, falar em cinco anos parece tempo demais. Afinal, vemos o mesmo governo gastar deliberadamente com benesses carssimas em investimentos de infraestrutura em Cuba e na Venezuela. 
OSNY MARTINS 
Joinville, SC 

Quando exerci a funo de cnsul-geral honorrio do Japo em Salvador, ouvi no Palcio da Associao Comercial da Bahia uma excelente palestra da ento presidente da Confederao Nacional da Agricultura, que muito esclarecia acerca de agronegcio, logstica e reforma agrria. Naquela palestra, e nesta entrevista a VEJA,  possvel perceber o esprito empreendedor do grande Bernardo Sayo, brao forte do governo JK na construo de Braslia. Oxal a competncia, coragem e determinao da ministra Ktia Abreu possam realizar seu desejo, que  o de todos os brasileiros, de ver nossa ptria livre da crise moral e financeira que ora estamos enfrentando. 
EMILTON MOREIRA ROSA 
Salvador, BA 

De fato, a sada para o Brasil  o campo. A conduo desse processo est em boas mos: as da ministra Ktia Abreu  mulher competente, gestora de primeira linha, correta em suas atitudes. Sua histria a credencia, e a entrevista  um retrato sincero de suas boas intenes. 
OMAR ANTONIO HENNEMANN 
Superintendente do Sebrae/TO 
Por e-mail, via smartphone 

Fiquei impressionada ao ler a entrevista de Ktia Abreu a VEJA. Alm de ter uma histria exemplar de conquistas, e ser uma grande representante feminina, a ministra da Agricultura tem atitudes que no apenas mostram competncia, mas tambm nos motivam a continuar lutando pelo Brasil. 
MARIA VITORIA PESSOA 
Curitiba, PR 

Uma grata surpresa a entrevista com a ministra Ktia Abreu. J a admirava como senadora atuante na defesa do agronegcio, e agora ela se apresenta como uma gestora com ideias inteligentes e inovadoras para transformar o Brasil numa nao produtora de alimentos para o mundo. 
PAULO MOLINA PRATES 
Braslia, DF 

No consegui ver nada de inovador na gesto do Ministrio, a no ser a contratao do "amigo" para chefe de cerimonial, com salrio de 4000 reais e j com expectativa de aumento. Uma vez poltico, sempre poltico! 
SNIA CARVALHO 
Rio de Janeiro (RJ), via smartphone 

Ctico com relao a entrevistas de polticos e ministros, decidi ler as Amarelas com a ministra da Agricultura, Ktia Abreu. No precisei ir muito longe. O fato de ela ter contratado um cabeleireiro para o cerimonial por 4000 reais mensais, e estar esperando que ele melhore a performance para aumentar seu salrio, foi a gola d'gua. Esto jogando o nosso dinheiro no lixo. Trabalhei por cinco anos na embaixada do Brasil em Washington-DC, nos Estados Unidos, e por trs anos e oito meses como mordomo de um ex-presidenle. Entre um cabeleireiro e um profissional de relaes pblicas, h uma universidade, experincia e conhecimento. Apadrinhamento e amizade ferem a tica na contratao para o servio pblico. Ktia Abreu, amiga de Dilma, repete o processo que culminou com sua nomeao. 
CARLOS ALBERTO LIMA 
Florianpolis, SC 

CARTAS A RICARDO PESSOA
Com relao s cartas enviadas ao empreiteiro preso Ricardo Pessoa ("O que , o que ...", 22 de abril), creio que ele est sendo pressionado para delatar o suposto chefe da mfia. V em frente, corruptor-corrupto! Porm, se no for voc, fatalmente sero outras pessoas que o delataro. A histria nos prova que a esmagadora maioria de mafiosos e criminosos organizados de vrios pases saiu do "pedestal" um dia.  s uma questo de tempo. 
JOS VICENTE BITTENCOURT 
Nova Esperana, PR 

J.R. GUZZO 
Excelente o artigo "'Ns' somos s isso" (22 de abril), de J.R. Guzzo, sobre as manifestaes e a insuficincia do clssico discurso de Lula.  lamentvel observar que a solidez econmica do Brasil, que foi duramente alcanada durante anos, est se dissolvendo nas mos do PT. A pssima administrao petista ao menos apresentou um lado bom: o pas que Lula dividiu entre "'Ns' e eles" sentiu a necessidade de se unir novamente. Que essa unio permanea suficientemente forte para lutar contra os poucos que se negam a sair da "turma" da corrupo. 
RODRIGO GUIMARES FURTADO 
Curitiba (PR), via smartphone 

Tem absoluta razo J.R. Guzzo quando afirma que "nem Lula, nem Dilma, nem Vaccari so capazes de entregar" ao Brasil srio o que as massas que tm ido s ruas querem. Eles no tm mesmo essa capacidade porque o que esse Brasil de verdade quer  e esse Brasil  maioria   um pas livre da bandalheira e da corrupo. O Brasil quer ver na sua administrao tica, justia, honestidade e honradez. Esse Brasil est dizendo em alto e bom som: basta de corrupo, basta de mentiras deslavadas, basta de polticos descompromissados com a verdade e com a postura serena e justa para a recuperao de nosso orgulho nacional. 
MANOEL SOARES FILHO 
Natal, RN  

NOVO MINISTRO DO STF 
Quando Joaquim Barbosa foi nomeado ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), ele tinha currculo e mostrou carter trabalhando. Vamos torcer para que Luiz Edson Fachin faa o mesmo ("O jurista que 'tem lado'", 22 de abril). Os brasileiros agradecem. 
ATARCISIO PENA 
Belo Horizonte (MG), via smartphone 

EDUCAO DOS FILHOS 
Parabenizo a jornalista Natalia Cuminale e a revista VEJA pela entrevista com o renomado psiquiatra americano Daniel Siegel ("A difcil arte de educar os filhos", 22 de abril). Sou pediatra e serei pai pela primeira vez dentro de quatro semanas, e entender o comportamento dos filhos para melhor educ-los sempre ser a estratgia acertada. No confundir disciplina com punio realmente  muito difcil, mas com amor e dedicao no  impossvel. Ao estabelecermos bases ticas e morais aos nossos filhos, durante a sua criao, praticamente garantimos que sejam cidados com carter. 
MARCONE DE SOUZA OLIVEIRA 
Ipatinga, MG 

Educar  uma das atividades mais desafiadoras para ns, pais. Achei excelente a entrevista com o psiquiatra americano Daniel Siegel, e j praticamos, eu e minha esposa, boa parte das orientaes sugeridas. A entrevista serve como guia para os jovens pais e para aqueles com filhos de temperamento difcil. Imperdvel! 
DELANE BARROS 
Macei (AL), via tablet 

BELEZA 
Quando tudo se apresenta muito feio no Brasil, vem VEJA falar de beleza ("O que restou da beleza", 22 de abril). VEJA, muito obrigado pelo respiro! Gregos, muito obrigado pelas referncias! Vai dar tudo certo, e tudo ficar belo. Pacincia e beleza para todos ns! 
CLUDIO FERREIRA 
So Paulo (SP), via tablet 

PARA SE CORRESPONDER COM A REDAO DE VEJA: as cartas para VEJA devem trazer a assinatura, o endereo, o nmero da cdula de identidade e o telefone do autor. Enviar para: Diretor de Redao. VEJA - Caixa Postal 11079 - CEP 05422-970 - So Paulo - SP: Fax: (11) 3037-5638; e-mail: veja@abril.com.br. Por motivos de espao ou clareza, as cartas podero ser publicadas resumidamente. S podero ser publicadas na edio imediatamente seguinte as cartas que chegarem  redao at a quarta-feira de cada semana.
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2# PANORAMA 29.4.15

     2#1 IMAGEM DA SEMANA  BELA ADORMECIDA? NO...
     2#2 DATAS
     2#3 CONVERSA COM ADRIANE GALISTEU  FORNO, FOGO E UM PUNHADO DE FAMA
     2#4 NMEROS
     2#5 SOBEDESCE
     2#6 RADAR
     2#7 VEJA ESSA

2#1 IMAGEM DA SEMANA  BELA ADORMECIDA? NO...
A vida, a morte muitas vezes adiada e o esquife de vidro do Demnio Vermelho.

Como j tinha sido dado por morto vrias vezes, Izzat Ibrahim Al-Duri teve de ser submetido a teste de DNA e exposto num caixo de vidro para que seu encontro com Al fosse comprovado. Conhecido como Demnio Vermelho por causa dos cabelos ruivos, Duri foi em vida uma praga que sobreviveu nas circunstncias provavelmente mais extremas que um humano pode enfrentar. Sobreviveu, em primeiro lugar, a seu chefe, Saddam Hussein, que, como Stalin, exterminava sobretudo os mais prximos. Agiram em conjunto desde o comeo de suas carreiras extraordinariamente violentas e, durante dcadas, bem-sucedidas. Como militante e carrasco do partido Baath, Duri matava inimigos no caminho da ascenso de Saddam a ditador, principalmente membros do Partido Comunista do Iraque. No poder, continuou a matar quem o chefe mandasse e deu at a filha em casamento  misteriosamente desfeito  a um dos filhos monstros de Saddam. Derrubado o tirano, Duri sobreviveu  caada do mais poderoso Exrcito da histria, que o colocou como rei de paus no baralho dos mais procurados, e dos inimigos internos xiitas. Com a ecloso do Estado Islmico, aliou-se aos novos jihadistas, apesar dos conflitos estruturais: vinha de um partido laico e de uma ordem sufista chamada Naqshbandi, considerada hertica, como tudo o mais, pelos ultrafundamentalistas. Ensinou tticas militares que ajudaram a impulsionar o espantoso avano do Estado Islmico. Foi morto por uma das dezenas de milcias iraquianas xiitas com as quais instrutores iranianos fazem o mesmo que Duri com os rebeldes sunitas: ensinam a matar com uma certa disciplina. Os dois lados, no momento, esto de alguma forma empatados, com vitrias que anulam derrotas e vice-versa. Fora do cl Duri e de sua ordem religiosa, ningum teve tempo nem vontade de derramar lgrimas pelo demnio vermelho. 
VILMA GRYZINSKI


2#2 DATAS
MORRERAM
Roberto Talma Vieira, diretor e produtor paulistano de TV, consagrado por seu trabalho na Rede Globo, onde esteve  frente de novelas de sucesso como Saramandaia (1976). Sua estreia na televiso ocorreu quando ele tinha apenas 9 anos e fazia parte de um grupo de sapateado que se apresentava no programa A Grande Gincana Kibon, da Record, em So Paulo. Passou pela Excelsior, Tupi e TV Rio antes de entrar para a Globo, em 1969. L atuou em diversos telejornais antes de ser transferido para o ncleo de dramaturgia, em 1972, ano em que codirigiu Selva de Pedra, ao lado de Walter Avancini. Na emissora carioca, Talma comandou mais de trinta novelas  o remake de Gabriela (2012) foi a derradeira , alm de minissries como Anos Dourados (1986), humorsticos (Casseta & Planeta, Urgente!, de 1994), musicais e programas infanto-juvenis. Tambm integrou a primeira equipe do Fantstico (1973) e participou da criao de Malhao (1995). Dia 23, aos 65 anos, de falncia de mltiplos rgos, no Rio. 

Cludio Cunha, ator, diretor e produtor paulistano de teatro e cinema, famoso por interpretar, ao longo de mais de trinta anos, o personagem-ttulo da pea O Analista de Bag. Inspirado num texto de Lus Fernando Verssimo, de 1981, que procurava retratar a personalidade do homem gacho, o espetculo estreou em 1982. Dezesseis anos mais tarde, bateu um recorde: era, ento, a montagem que havia passado mais tempo em cartaz e, por isso, entrou para o Guinness Book. Cunha  um ex-seminarista que comeara a carreira de ator na TV Excelsior, na dcada de 70  foi citado como o profissional que por mais tempo interpretara um mesmo papel. Dia 20, aos 68 anos, de infarto, em Porto Alegre. 

Alfred Taubman, um dos homens mais ricos dos EUA, com fortuna estimada em 3,1 bilhes de dlares, colecionador de arte, conhecido por transformar a casa de leilo Sotheby's numa potncia e por popularizar os shoppings em seu pas. Nascido em Michigan, estudou arquitetura em duas instituies universitrias, mas no chegou a concluir o curso em nenhuma delas. Iniciou sua trajetria de sucesso em 1950, quando pediu 5000 dlares emprestados para construir e alugar uma loja. Dali em diante, tornou-se proprietrio de cinemas, imobilirias, prdios, lojas de departamentos e shopping centers. Em 1983, comprou a ento chamada Sotheby Parke Bernet por 125 milhes de dlares, quantia que conseguiu juntar com a ajuda de amigos, como Henry Ford II. Tarimbado no varejo, modernizou o negcio, oferecendo facilidades aos clientes. Em 2002, passou nove meses e meio na priso e  precisou pagar multa de 7,5 milhes de dlares ao ser declarado culpado de conspirar para manipulao de preos do mercado. Desde 2005 no tinha o controle da Sotheby's, vendida por 168 milhes de dlares. Dia 17, aos 91 anos, de infarto, em Michigan. 

Vladimir Capella, dramaturgo, diretor e msico paulista, consagrado por sua obra voltada para o pblico infantil. Seu primeiro espetculo, Panos e Lendas (1978), ganhou os prmios Mambembe, Governador do Estado de So Paulo e Molire. Com as peas Avoar (1985) e Antes de Ir ao Baile (1986), Capella  nascido em So Caetano do Sul  venceu duas vezes o prmio Apetesp. Ao longo da carreira, dirigiu ainda duas produes para adultos: Filme Triste (1983), de sua autoria, e Louco Circo do Desejo (1985), de Consuelo de Castro. Dia 21, aos 63 anos, de parada cardiorrespiratria, em So Caetano. 


2#3 CONVERSA COM ADRIANE GALISTEU  FORNO, FOGO E UM PUNHADO DE FAMA
Cabe mais um nas cozinhas de TV? A apresentadora acredita que sim e vai estrear um programa de culinria junto com o marido, Alexandre Idice. Tempero extra: ele no  apresentador e ela praticamente no come.

Uma pessoa que no cozinha e parece se alimentar de nuvens tem autoridade para fazer um programa sobre comida? 
Eu s ajudo. E, quando o Alexandre reclama da minha ajuda, fico de dondoca, sentada, s observando. No entendo nada de cozinha. No sei nem enrolar brigadeiro. 

O que faz, efetivamente? 
Eu entrevisto convidados e, s vezes, mexo as panelas. Embora o Ale implique at com isso: diz que no sei fazer. E existe jeito para mexer panela? No  igual a comer, quando tudo se mistura de qualquer jeito? 

O que ensinou a seu marido, empresrio do ramo da moda, sobre o trabalho em frente s cmeras? 
Se passou do ponto ou ficou ruim, no faa cara de que est bom. Assuma o erro e d risada disso. O telespectador no  burro. 

Na preparao para o programa, percebeu que, para casais em que ambos gostam de fazer comida, o segredo  ter cozinhas separadas? 
Claro. Temos um cozinheiro em casa e j vi que o Alexandre o probe de usar algumas panelas. Vamos fazer uma reforma, e cada um vai ter uma cozinha.  

Qual o seu peso? 
Tenho 1,74 metro e 57 quilos. As pessoas criticam meu peso, mas ainda perderia uns quilinhos. Com 17 anos, chupava gelo e comia rcula para no engordar. Hoje, como massa, mas malho seis vezes por semana. 

S vale resposta numrica: quantas calorias ingere por dia? 
Novecentas. Mas, se ganhar 2 quilos, entro na dieta das 600 at perd-los. 

O que sugeriria como prato para reconciliar um casal, instaurar a harmonia domstica e agradar a toda a famlia? 
Para a famlia, feijoada; para a harmonia domstica, uma massinha com molho de tomate  o branco engorda duas vezes mais ; e, para reconciliar um casal, steak tartare, porque  leve e d disposio para namorar depois. 


2#4 NMEROS
45,3% dos consumidores da Regio Norte do Brasil esto inadimplentes, o maior percentual do pas. Na sequncia, aparecem o Centro-Oeste (41,3%) e o Nordeste (38,7%), de acordo com o Servio de Proteo ao Crdito (SPC).
4% foi o aumento no ms passado, em relao ao mesmo perodo de 2014, do nmero de consumidores com dvidas em atraso registradas pelo SPC no Nordeste e no Centro-Oeste, as maiores altas regionais.
1 em cada duas dvidas dos brasileiros  com bancos. Em seguida, vm lojas e servios (contas de telefone, gua, luz).
21.676 reais  o valor mdio das dvidas.


2#5 SOBEDESCE
SOBE
Nasdaq -  Impulsionada sobretudo pela alta de aes da Apple, a bolsa americana de tecnologia bateu o recorde de sua histria, superando o pico de 2000. 
Emprego -  Pela primeira vez neste ano, o Brasil registrou mais contrataes do que demisses: 19.282 novas vagas foram abertas em maro. 
Pacincia -  Ausente nas ltimas verses do Windows, o jogo de cartas est de volta no novo sistema da Microsoft, a ser lanado em junho.

DESCE
Dinamarca -  Depois de dois anos seguidos no topo, o pas perdeu para a Sua o posto de o mais feliz do mundo no ranking da ONU - o Brasil subiu da 24 para a 16 posio. 
FM - O sistema teve seu fim anunciado para 2017 pela Noruega. Ser substitudo pelo modelo digital DAB, mais barato e com melhor qualidade de som.  
Medalha da Inconfidncia -  O governador Fernando Pimentel concedeu a honraria, destinada aos que prestaram "relevantes servios a Minas Gerais", a Joo Pedro Stedile, que s serve  baderna.


2#6 RADAR
THIAGO PRADO thiago.prado@abril.com.br

 CONGRESSO
SEM ABAFA 1
Esgotou-se na Cmara a farra dos parlamentares que assinam listas de apoio  criao de CPIs e repentinamente mudam de ideia. H duas semanas, dois deputados do PSD tentaram retirar o nome da lista que instalava uma comisso para investigar o BNDES. Eduardo Cunha vetou a manobra. No incio do ms, movimento semelhante feito por cinco senadores do PSB e um do PP inviabilizou a criao de uma CPI no Congresso para investigar os fundos de penso. 

SEM ABAFA 2 
Cinco CPIs funcionam atualmente na Cmara. Esse  o limite mximo de comisses que podem estar ativas na Casa pelos prximos 180 dias. Neste ano, Cunha pretende autorizar a prorrogao apenas da CPI da Petrobras e, com isso, abrir caminho para novas investigaes de deputados no segundo semestre. 

PORTA DE SADA 
Fernando Collor est fora dos planos do partido que ser criado a partir da fuso entre PTB e DEM. A ideia  entregar o comando da nova sigla em Alagoas aos democratas e, com isso, influenci-lo sutilmente a seguir outro rumo. O novo partido ser de oposio ao governo Dilma Rousseff. 

 BRASIL 
AGENDA SECRETA 
Rodrigo Janot continua sem dar publicidade a seus encontros com polticos. Alimenta, assim, teorias da conspirao em gabinetes de Braslia. Em fevereiro, esteve secretamente com Jos Eduardo Cardozo dias antes do anncio da lista dos envolvidos na Operao Lava-Jato. Neste ms, teve encontros no divulgados com Humberto Costa e Arthur Lira, ambos investigados no petrolo. 

IMPRENSA AMIGA 
A famlia Sarney engordou a poupana graas ao governo do Maranho nos ltimos quatro anos. Dos 15 milhes de reais investidos com publicidade institucional em jornais pelo governo Roseana Sarney, 10 milhes de reais (dois teros do total) foram destinados a O Estado do Maranho, dirio de sua famlia. O novo governador, Flvio Dino, est revendo toda a poltica de distribuio de verba publicitria no estado. 

SELEO DEMOCRTICA 
Uma deciso do Tribunal Regional Federal da 1 Regio acaba de eliminar as restries criadas pelo Exrcito para ingresso na tropa. Desde 2005, os militares impediam candidatos com altura inferior a 1,60 metro (homens) ou 1,55 metro (mulheres). Tambm vetavam soldados com menos de vinte dentes naturais e portadores de doenas como aids ou sfilis. Se as novas regras no entrarem em vigor imediatamente, uma multa diria de 5000 reais ser aplicada ao Comando do Exrcito. 

ARMADILHA PARA MORO 
Chegou neste ms ao Tribunal Regional Federal da 4 Regio mais uma tentativa desesperada de melar a Operao Lava-Jato. Sem conseguirem derrubar as acusaes no mrito, os advogados de empreiteiros tm como alvo agora a distribuio de processos feita na Justia do Paran. Em 2006, o juiz Srgio Moro no obedeceu a uma determinao do TRF-4 de repassar para outra vara um procedimento que envolvia Alberto Youssef  justamente aquele que originou a investigao dos desmandos na Petrobras anos depois. No entanto, a defesa dos empreiteiros encontrou um despacho do juiz declarando-se suspeito para atuar em processos em que o doleiro estivesse implicado, por ter cuidado da sua delao premiada em 2004 no caso Banestado  que investigou remessas ilegais de recursos para o exterior. 

 ECONOMIA 
NOMEAO ENCRENCADA 
Ablio Diniz emplacou como vice-presidente de relaes institucionais da Brasil Foods um executivo com um passado controverso na Justia. Jos Roberto Pernomian Rodrigues foi condenado em 2011 pela 4 Vara Federal de So Paulo por fraudes cometidas em importao de equipamentos eletrnicos da Cisco. Mantida a punio em outras instncias, Pernomian pode ficar impedido de seguir no cargo pela lei brasileira de sociedades annimas. 

LONGE DA CRISE 
As TVs aberta e fechada conseguiram escapar da crise do ano passado. Dados do Projeto Inter-Meios, do Meio & Mensagem, apontam crescimento de 8,1% no investimento publicitrio nas emissoras abertas em 2014. O valor pago em anncios chegou a 23,3 bilhes de reais. No caso da TV por assinatura, a arrancada foi ainda mais expressiva, batendo a casa dos 28%. Passou de 1,6 bilho de  reais, em 2013, para 2,1 bilhes de reais, no ano passado. 

 MSICA 
BRIGA DE TITS 1 
Uma percia pedida pela Justia do Rio de Janeiro calculou em 32 milhes de reais o valor devido pelo Escritrio Central de Arrecadao e Distribuio a Francisco Rezek, ex-ministro do STF. Rezek atuou como advogado do Ecad no processo contra a Rede Globo e, desde o ano passado, questiona judicialmente os honorrios pagos pela entidade. As duas partes discordam do valor determinado pela percia. 

BRIGA DE TITS 2 
A propsito, os dois lados buscaram reforos de peso para ganhar a disputa nos tribunais. Enquanto o Ecad  contratou Eros Grau para assessor-lo, Rezek tem Ellen Gracie ao seu lado  ambos ex-ministros do STF. 

 FUTEBOL 
PRODUTO DESVALORIZADO 
Mesmo com a fortuna despejada pela Globo nos clubes, o Brasileiro  apenas a 15 competio mais valiosa do mundo.  o que revela uma pesquisa indita da TV Sports Markets. Transmitir o campeonato por aqui custa 586 milhes de dlares por ano  emissora. Os dois produtos esportivos mais valiosos do planeta para a TV so a NFL, a liga nacional de futebol americano (6,5 bilhes de dlares), e a MLB, o campeonato de beisebol (3 bilhes de dlares). No futebol, a Premier League inglesa  o produto mais caro (2,9 bilhes de dlares), seguido do campeonato italiano (1,3 bilho de dlares) e do francs (926 milhes de dlares). 

 TELEVISO 
NOVO CONTRATO 
Jos Luiz Datena renovou o contrato com a Band por mais um ano. Em meio  crise financeira, a emissora tentou negociar uma reduo no salrio de 650.000 reais do apresentador, mas no teve sucesso. 


2#7 VEJA ESSA
EDITADO POR RINALDO GAMA

No sei ligar a televiso. Tenho problema com essas coisas digitais. Sou do tempo do 'on' e 'off'. - MARCO NANINI, ator, na Folha de S.Paulo 

O Brasil no se renova; os problemas so os mesmos, sempre adiados e nunca resolvidos. ANTONIO FAGUNDES, ator, em O Estado de S. Paulo 

No estou preocupado em passar vergonha. - ANDERSON SIIVA, ex-campeo de MMA, na coletiva em que confirmou sua participao na seletiva para a escolha da equipe brasileira de tae kwon do que vai disputar a Olimpada do Rio, em 2016 

Usei toda a minha fora para ficar sbrio. Agora, comecei a beber um pouco de novo, ento posso trabalhar. Quando voc prepara um filme,  um trabalho muito duro, e voc tende a beber mais. - LARS VON TRIER, cineasta dinamarqus, ao abordar, em entrevista ao jornal britnico The Guardian, sua participao, por seis meses, nas reunies dos Alcolicos Annimos 

Um homem homossexual  100% homem. Ele no precisa se vestir como um homossexual. (...) Um homem tem de ser um homem. - GIORGIO ARMANI, estilista italiano, na publicao inglesa The Sunday Times Magazine 

Todo mundo sabe como vivem os ricos de seu prprio pas e do resto do mundo; por isso, a demanda por mais igualdade vai ser maior.  JIM YONG KIM, presidente do Banco Mundial, no dirio espanhol El Pas 

Estou convencido de que no haver a sada da Grcia. O tratado no prev que um pas possa ser legalmente expulso do euro. - VTOR CONSTNCIO, vice-presidente do Banco Central Europeu, falando aos integrantes do Parlamento

Ns aprendemos lies de humildade. Vimos que velhas doenas em novos contextos podem trazer surpresas. - MARGARET CHAN, diretora-geral da Organizao Mundial da Sade, em comunicado de avaliao do trabalho da entidade no combate ao surto de ebola na frica Ocidental 

No tem sentido tratar o usurio de drogas como um criminoso. - FERNANDO HENRIQUE CARDOSO, ex-presidente da Repblica (PSDB), ao participar, no Rio de Janeiro, de um evento internacional sobre o tema 

Isso  ridculo. - SANDRA BULLOCK, atriz americana de 50 anos ao comentar, na People, sua primeira reao ao saber que fora eleita pela revista "a mulher mais bonita do mundo 

Quem gosta muito de dinheiro tem de ser tirado da poltica. - JOS MUJICA, senador e ex-presidente do Uruguai, na BBC Mundo 

No podemos deixar que a poltica seja espao de gente que no deu pra nada. - LUS ROBERTO BARROSO, ministro do Supremo Tribunal Federal, em palestra na Universidade Harvard, conforme noticiou a Folha de S.Paulo 

EPGRAFE DA SEMANA 
A pretexto do jogo poltico, em qualquer parte do planeta 
At mesmo os poderosos podem precisar dos fracos. - ESOPO, fabulista grego (sc.VII a.C.-VI a.C.)
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3# BRASIL 29.4.15

     3#1 OS FAVORES DO EMPREITEIRO
     3#2 A DELAO COMPENSA
     3#3 UM AVANO SOB AMEAA NO SENADO
     3#4 O CANDIDATO MORA AO LADO
     3#5 COM O DINHEIRO DOS OUTROS,  FCIL
     3#6 ARTIGO  J.R. GUZZO  MAIORIA SEM MEDO

3#1 OS FAVORES DO EMPREITEIRO
Preso h seis meses, o engenheiro Lo Pinheiro, ex-presidente da OAS, uma das empreiteiras envolvidas no escndalo da Petrobras, admite pela primeira vez a inteno de fazer acordo de delao premiada. Seu relato mostra quanto ele era ntimo do ex-presidente Lula.
ROBSON BONIN

     O engenheiro Lo Pinheiro cumpre uma rotina de preso da Operao Lava- Jato que, por suas condies de sade,  mais dura do que a dos demais empreiteiros em situao semelhante. Preso h seis meses por envolvimento no esquema do petrolo, o ex-presidente da OAS, uma das maiores construtoras do pas, obedece s severas regras impostas aos detentos do Complexo Mdico-Penal na regio metropolitana de Curitiba. Usa o uniforme de preso, duas peas de algodo azul-claras. Tem direito a uma hora de banho de sol por dia, come "quentinhas" na prpria cela e usa o chuveiro coletivo. Na cela, divide com outros presos o "boi", vaso sanitrio rente ao piso e sem divisrias. Dez quilos mais magro, Pinheiro tem passado os ltimos dias escrevendo. Um de seus hbitos conhecidos  redigir pequenas resenhas e anex-las a cada livro lido. As anotaes feitas so muito mais realistas e impactantes do que as literrias. Lo Pinheiro passa os dias montando a estrutura do que pode vir a ser seu depoimento de delao premiada  Justia. Ele foi durante toda a dcada que passou o responsvel pelas relaes institucionais da OAS com as principais autoridades de Braslia. Um dos captulos mais interessantes de seu relato trata justamente de uma relao muito especial  a amizade que o unia ao ex-presidente Lula. 
     De todos os empresrios presos na Operao Lava-Jato, Lo Pinheiro  o nico que se define como simpatizante do PT. O empreiteiro conheceu Lula ainda nos tempos de sindicalismo, contribuiu para suas primeiras campanhas e tornou-se um de seus mais ntimos amigos no poder. Culto, carismtico e apreciador de boas bebidas, ele integrava um restrito grupo de pessoas que tinham acesso irrestrito ao Palcio do Planalto e ao Palcio da Alvorada. Era levado ao "chefe", como ele se referia a Lula, sempre que desejava. No passava mais do que duas semanas sem manter contato com o presidente. Eles falavam sobre economia, futebol, pescaria e os rumos do pas. Com o tempo, essa relao evoluiu para o patamar da extrema confiana  a ponto de Lula, ainda exercendo a Presidncia e depois de deix-la, recorrer ao amigo para se aconselhar sobre a melhor maneira de enfrentar determinados problemas pessoais. Como  da natureza do capitalismo de estado brasileiro, as relaes amigveis so ancoradas em interesses mtuos. Pinheiro se orgulhava de jamais dizer no aos pedidos de Lula. Desde que deixou o governo, Lula costuma passar os fins de semana em um amplo stio em Atibaia, no interior de So Paulo. O imvel  equipado com piscina, churrasqueira, campo de futebol e tem um lago artificial para pescaria, um dos esportes preferidos do ex-presidente. Fora do poder,  l que ele recebe os amigos e os polticos mais prximos. Em 2010, meses antes de terminar o mandato, Lula fez um daqueles pedidos a que Pinheiro tinha prazer em atender. Encomendou ao amigo da construtora uma reforma no stio. Segundo conta um interlocutor que visitou Pinheiro na cadeia, esse pedido est cuidadosamente anotado nas memrias do crcere que Pinheiro escreve. 
     Na semana passada, a reportagem de VEJA foi a Atibaia, regio de belas montanhas entrecortadas por riachos e vegetao prstina. Fica ali o Stio Santa Brbara, cuja reforma chamou a ateno dos moradores da regio. Era comeo de 2011 e a intensa atividade nos 150.000 metros quadrados do stio mudou a rotina da vizinhana. Originalmente, no Stio Santa Brbara havia duas casas, piscina e um pequeno lago. Quando a reforma terminou, a propriedade tinha mudado de padro. As antigas moradias foram reduzidas aos pilares estruturais e completamente refeitas, um pavilho foi erguido, a piscina foi ampliada e servida de uma rea para a churrasqueira. 
     O que mais chamou ateno, alm da rapidez dos trabalhos,  que tudo foi feito fora dos padres convencionais. A reforma durou pouco mais de trs meses. Alguns funcionrios da obra chegavam de nibus, ficavam em alojamentos separados e eram proibidos de falar com os operrios contratados informalmente na regio e orientados a no fazer perguntas. Os operrios se revezavam em turnos de dia e de noite, incluindo os fins de semana. Eram pagos em dinheiro. "Ajudei a fazer uma das varandas da casa principal. Me prometeram 800 reais, mas me pagaram 2000 reais a mais s para garantir que a gente fosse mesmo cumprir o prazo, tudo em dinheiro vivo", diz o servente de pedreiro Cludio Santos. "Nessa poca a gente ganhou dinheiro mesmo. Eu pedi 6 reais por metro cbico de material transportado. Eles me pagaram o dobro para eu acabar dentro do prazo. Eram 20.000 por vez. Traziam o pacoto, chamavam no canto para ningum ver, pagavam e iam embora", conta o caminhoneiro Drio de Jesus. Quem fazia os pagamentos? "S sei que era um engenheiro que esteve na obra do Itaquero. Vi a foto dele no jornal", recorda-se Drio. 
     O arquiteto contratado para coordenar os trabalhos chama-se Igenes Irigaray Neto. Ele foi mandado de Dourados (MS) especialmente para tocar o projeto em Atibaia. Irigaray Neto foi encaminhado pelo empresrio Jos Carlos Bumlai, que, a exemplo do empreiteiro da OAS,  amigo de Lula, cuida de seus assuntos pessoais e  personagem recorrente de vrias histrias mal contadas que envolvem poder e dinheiro durante o governo petista. Bumlai apareceu at no escndalo do petrolo, em que  acusado de ter indicado um dos diretores corruptos da Petrobras. 
     Dono de uma loja de decorao, o empresrio Matuzalem Clementoni conheceu Lula durante o trabalho de decorao do stio. Matuzalem costuma tomar caf com o "patro", como ele se refere ao ex-presidente. O ex-governador de Mato Grosso do Sul Zeca do PT j at pescou no novo lago. "Eu que ensinei o Lula a pescar. Ele  bom de pesca, mas no stio dele os peixes so criados para que s ele consiga fisg-los." Lula encomendou ao amigo da OAS a reforma do stio, que os amigos e polticos identificam como sendo do ex-presidente. No cartrio da cidade, porm, a escritura de posse est em nome dos empresrios Jonas Suassuna e Fernando Bittar  ambos scios de Fbio Lus da Silva, o Lulinha, filho do ex-presidente. Suassuna e Bittar compraram o stio em agosto de 2010, quatro meses antes de Lula deixar o cargo. Pagaram 1,5 milho de reais pela propriedade. Lulinha mora em um prdio de luxo, localizado numa das reas mais nobres de So Paulo, cujos apartamentos so avaliados em 6 milhes de reais. O apartamento onde Lulinha mora pertence a Suassuna. Procurados por VEJA, os empresrios benemritos da famlia Lula da Silva no quiseram se pronunciar.
     Lo Pinheiro fez um segundo favor ao ex-presidente no ramo imobilirio. O empreiteiro conta que, a pedido do ainda presidente Lula, a OAS incorporou prdios inacabados da Cooperativa dos Bancrios (Bancoop), entidade ligada ao PT que, em 2006, deu o golpe em 3000 muturios em So Paulo. Durante anos, dezenas de famlias que pagaram fielmente suas mensalidades  Bancoop tiveram seu suado dinheirinho desviado para as campanhas eleitorais do PT. Sem uma mozinha da OAS, poderia dar cadeia o golpe da Bancoop, um ensaio geral para a roubana generalizada que marcaria mais tarde as gestes petistas. Cadeia para quem? Para Joo Vaccari Neto, tesoureiro do PT que, alis, est preso por envolvimento no escndalo da Petrobras. Fiel ao amigo Lula, a OAS de Lo Pinheiro concluiu no incio do ano o edifcio Solaris, da Bancoop, que fica na praia do Guaruj. Por que o Solaris foi concludo, enquanto centenas de outros lesados pela Bancoop esperam em vo pela construo das unidades que compraram? Bem, o fato de Lula e Vaccari terem apartamentos no luxuoso Solaris explica as prioridades da OAS. Aos amigos, tudo. O trplex de cobertura do ex-presidente no edifcio Solaris, do Guaruj, tem 297 metros quadrados e elevador interno. O espao  suficiente para construir quase cinquenta celas iguais  que hoje serve de residncia a Lo Pinheiro na penitenciria em Pinhais. 
     Em suas memrias do crcere, o scio da OAS anotou um terceiro favor feito a Lula, mas j na condio de ex-presidente. Em 2012, a Polcia Federal desmantelou uma quadrilha que vendia facilidades no governo. No topo da organizao apareceu uma figura pouco conhecida. Ex-secretria de sindicato, Rosemary Noronha era chefe do escritrio da Presidncia da Repblica em So Paulo. Os investigadores descobriram que ela aproximava autoridades de empresrios em troca de propinas. A questo  que Rosemary no era uma corrupta qualquer. Amiga ntima de Lula desde os tempos das greves do ABC paulista, Rose era tratada no governo como uma primeira-dama informal. Em viagens internacionais, quando a primeira-dama no podia ir, ela era includa na comitiva presidencial. Em viagem a Roma, hospedou-se na embaixada brasileira, que lhe reservou o melhor quarto do Palazzo Pamphili, a especialssima sede da nossa representao diplomtica na Itlia. Cada em desgraa, e sentindo-se abandonada, Rose ameaou revelar seus segredos. Lo Pinheiro entrou em cena para ajudar o amigo. "A gente precisa ajudar o Lula nisso", ouviu de um interlocutor. Logo, Joo Batista de Oliveira, marido de Rosemary, conseguiu um bom emprego. A ex-secretria teve  disposio uma banca de 38 advogados para defend-la na Justia. Procurada, Rosemary Noronha disse que no iria falar sobre isso. 
     Foi com base no contedo das anotaes de Lo Pinheiro que VEJA pautou a reportagem que aparece nestas pginas. Foi possvel confirmar a maior parte das suspeitas que as anotaes do preso levantam. A reportagem fica como registro indelvel no caso de Lo Pinheiro, eventualmente beneficiado por um habeas corpus do Supremo Tribunal Federal (STF), sair da cadeia, voltar a ser apenas o amigo de Lula, renegando o que anotou e contou. Diz um dos assessores mais prximos do empreiteiro: "A nica coisa que impediu o Lo at agora de colaborar com a Justia  a perspectiva de sua libertao, que alguns advogados asseguram que vai ocorrer em breve". Em situao semelhante encontra-se Ricardo Pessoa, da UTC, empreiteiro preso, que tambm deixou escapar pistas dos danos que pode causar a Lula e outros poderosos. Em troca de reduo da pena, ele se compromete a revelar o esquema de financiamento de campanhas do PT e de polticos do partido. 
     Lo Pinheiro e Ricardo Pessoa esto colocados diante de um interessante dilema. Primeiro, se propuserem e for aceita sua delao premiada, eles recebero pena bem menor, como j aconteceu com Paulo Roberto Costa e o doleiro Alberto Youssef (veja a reportagem na pg. 58). Segundo, se optarem por no fazer a delao premiada, o mais certo  que recebam, em alguns casos, penas dilatadas de algumas dezenas de anos. Ao optar por ser delator, porm, o preso renuncia ao direito de recorrer da pena e tem de comear a cumpri-la imediatamente. Ao optar por no delatar, a pena ser altssima, mas o preso tem direito a recorrer aos tribunais superiores em liberdade e s cumprir a pena quando vier a sentena definitiva, o que pode demorar at oito ou dez anos.  mais compensador comear a cumprir um ano em regime fechado e depois sair livre, caso do delator Paulo Roberto Costa? Ou no fazer delao, pegar uma pena gigantesca, mas no cumpri-la um nico dia at que venha a condenao definitiva. Para um preso com 63 anos de idade e sade frgil, como  o caso de Lo Pinheiro, talvez seja mais vantajoso pessoalmente esperar um habeas corpus que o tire da priso preventiva dentro de alguns dias e, depois, seja qual for a sentena recebida, recorrer em liberdade, mesmo que com desonra. Se consultar sua conscincia, porm, Pinheiro poderia optar por contar tudo o que sabe, cumprir um breve perodo na priso como delator e deixar s geraes futuras de brasileiros um legado positivo, que ele sonegou  atual. 
COM REPORTAGEM DE KALLEO COURA E HUGO MARQUES

MENSALEIRO EXTRADITADO
     Quando fugiu do Brasil para a Itlia, em 2013, o petista Henrique Pizzolato apostou na impunidade - ou, na pior das hipteses, como ele admitiu, na possibilidade de sujeitar-se a um novo julgamento naquele pas "por um tribunal que no se submete s imposies da mdia empresarial". Ex-diretor de marketing do Banco do Brasil, ele foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal a doze anos e sete meses de priso por corrupo passiva, peculato e lavagem de dinheiro. Deveria estar dividindo uma cela com seus comparsas. O mensaleiro, porm, fugiu antes de a polcia alcan-lo, usando um passaporte falso, o dinheiro roubado dos cofres pblicos e as facilidades de ter cidadania italiana. Mas deu tudo errado. Em fevereiro do ano passado, Pizzolato foi descoberto pelas autoridades italianas e preso na cidade de Maranello. 
     A defesa do mensaleiro ainda tentou uma artimanha para evitar que ele fosse mandado de volta ao Brasil, alegando que as cadeias do pas no tinham condies de garantir o cumprimento da pena com o mnimo de segurana. A Justia italiana considerou o argumento e indeferiu a extradio. O governo brasileiro, ento, recorreu  Corte de Cassao. Na sexta-feira passada, ao contrrio do que acreditava Henrique Pizzolato, havia uma hiptese pior que as consideradas de incio. Sua extradio foi autorizada pelo governo italiano, e ele ter de voltar ao Brasil para cumprir sua pena - muito provavelmente no presdio da Papuda, em Braslia -, sem direito aos benefcios que a lei prev. Como fugitivo, dificilmente algum juiz autorizaria a concesso de qualquer tipo de regalia ao condenado. Se servir de consolo, diante das propores que a cada dia ganha o escndalo do petrolo, Pizzolato no deve ficar sozinho por muito tempo na penitenciria. Tudo indica que companheiros e ex-companheiros de crime, em breve, lhe faro companhia.
ADRIANO CEOLIN


3#2 A DELAO COMPENSA
As primeiras sentenas do escndalo da Petrobras mostram que a tradio de impunidade nos casos de corrupo comea a sofrer um duro golpe.
DANIEL PEREIRA

     No processo do mensalo, alguns dos principais criminalistas do pas acusaram o relator Joaquim Barbosa de adotar uma postura imperial na conduo do julgamento e deturpar entendimentos jurdicos, como a teoria do domnio do fato, para garantir a condenao de polticos e empresrios que protagonizaram o primeiro esquema de compra de apoio parlamentar do governo do PT. A presso no surtiu o efeito esperado, e o Supremo Tribunal Federal (STF) sentenciou a antiga cpula petista  priso. A deciso foi considerada um "ponto fora da curva", conforme expresso cunhada pelo ministro Lus Barroso, por mandar para a cadeia o ex-ministro Jos Dirceu e, de quebra, representar uma rara derrota dos mais renomados escritrios de advocacia. Apesar de derrotados no mensalo, os criminalistas apostavam que a tal curva retornaria  sua trajetria normal, sem novos pontos de exceo que abalassem a notria dificuldade da Justia brasileira de punir os corruptos de colarinho-branco. A clientela, diziam os advogados, voltaria a dormir tranquila. Ledo engano. 
     Na semana passada, na primeira sentena relacionada ao petrolo, o juiz Srgio Moro condenou oito pessoas  priso. Seis delas tambm tero de pagar uma indenizao de quase 19 milhes de reais  Petrobras para compensar os prejuzos registrados pela companhia com os desvios nas obras da Refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco. O doleiro Alberto Youssef e o ex-diretor Paulo Roberto Costa receberam penas de nove anos e dois meses e de sete anos e seis meses de priso, respectivamente, mas cumpriro apenas o que ficou acertado no acordo de delao. Youssef ficar mais dois anos em regime fechado. J a pena privativa de liberdade de Costa valer at outubro de 2016. Foram justamente Youssef e Costa os primeiros a explicar como rodava a engrenagem clandestina na Petrobras, movida por propinas pagas pelas empreiteiras a servidores e polticos em troca de contratos superfaturados. Graas a essas informaes, os dois delatores tiveram suas penas no petrolo reduzidas. 
     Disse Moro: "Embora seja elevada a culpabilidade de Alberto Youssef, a colaborao demanda a concesso de benefcios, no sendo possvel tratar o criminoso colaborador com excesso de rigor, sob pena de inviabilizar o instituto da colaborao premiada". A sentena atingiu peixes pequenos que atuavam nas guas sujas do petrolo. Haver mais decises pela frente  e contra personagens grados. H inquritos contra cinquenta polticos e lderes partidrios no STF. Alm de ser o marco inicial da punio aos ladres da Petrobras, essa primeira leva de prises prenuncia mais um duro golpe na impunidade. Desde a deflagrao da Operao Lava-Jato e da priso de executivos das maiores empreiteiras do pas, os advogados de defesa tentam desqualificar o juiz e seu arsenal jurdico, exatamente como ocorreu no mensalo. Em coro, alegam que Moro usa o instrumento da delao premiada de forma desmedida e lana mo de prises temporrias e preventivas para pressionar os acusados a colaborar com a Justia. Alm disso, afirmam que a investigao est apinhada de vcios e ilegalidades. 
     "Nos tribunais superiores, os ministros mostraro as vrias nulidades desse processo", diz o advogado de uma grande empreiteira. At agora, STF e STJ tm chancelado a atuao de Moro, da priso temporria de empresrios aos acordos de delao premiada. A advocacia exerce o direito de espernear, que no consta dos cdigos mas  uma tradio nacional, numa tentativa de impedir que empreiteiros de ponta, como Ricardo Pessoa, da UTC, e Lo Pinheiro, da OAS, sigam os delatores e ajudem a esclarecer a principal dvida sobre o petrolo: quem eram os chefes do esquema de corrupo ou qual cadeia de comando autorizou e avalizou o desfalque bilionrio na Petrobras. Como se sabe, no h recibo para atos de corrupo. Em casos complexos, s a delao premiada  capaz de apontar as digitais por trs da roubalheira. Como lembrou Moro num artigo sobre a Operao Mos Limpas, que atingiu o corao da mfia italiana, no h como condenar moralmente o delator se a lei  justa e democrtica. "Condenvel, nesse caso,  o silncio", pontuou o juiz. 


3#3 UM AVANO SOB AMEAA NO SENADO
A lei da terceirizao, aprovada na Cmara, corre o risco de ser desfigurada pelos senadores. Na raiz do conflito, contudo, est o embate poltico, e no a lgica econmica.
MARCELA MATTOS

     O projeto destinado a regulamentar a terceirizao do trabalho, um dos maiores motivos de disputas na Justia Trabalhista, repousou mais de uma dcada no Congresso. Era um tpico tema do qual o governo no queria tratar. O PT e o seu brao sindical, a Central nica dos Trabalhadores, CUT, so historicamente contrrios  aprovao de uma lei que autorize terceirizar todas as atividades de uma empresa, e no apenas aquelas auxiliares, como os servios de vigilncia e limpeza. Pois o presidente da Cmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), decidiu no apenas desengavetar o texto como se dedicar  sua aprovao. Na ltima semana, a lei passou na Cmara. Agora ser analisada pelos senadores. A tramitao poder ser rpida, se houver o empenho do presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL). Era o que se esperava, sendo Calheiros e Cunha do mesmo partido. A realidade, entretanto, no deve ser assim. Renan ameaou pr o p no freio. Manifestou discordncias em relao ao texto da Cmara. O presidente do Senado deu a entender que trabalhar para a alterao do projeto, mexendo inclusive em pontos essenciais, o que traz o risco de desfigurar por completo a finalidade original da lei. 
     A questo central est na distino entre a atividade principal de uma empresa, a chamada atividade-fim, e as atividades auxiliares, as atividades-meio (veja o quadro na pg. ao lado). A maior parte dos processos trabalhistas decorrentes da terceirizao se deve justamente  dificuldade em definir claramente qual funo  a principal e quais so acessrias. Por isso, o projeto da Cmara simplesmente autoriza que qualquer funo ou servio sejam prestados por outra empresa. Renan, porm, disse ver a uma ameaa aos trabalhadores. " fundamental regularizar os terceirizados. Temos no Brasil 12 milhes. Mas no podemos regulamentar, sob hiptese nenhuma, a atividade-fim", afirmou Renan. " uma involuo, um retrocesso. Significa revogar os direitos e as garantias individuais e coletivos." 
     A reao de Renan, contudo, tem como pano de fundo razes mais profundas do que a mera preocupao com os direitos trabalhistas. O peemedebista no superou a demisso do afilhado Vincius Lages do Ministrio do Turismo para alocar o ex-presidente da Cmara Henrique Alves. Brao-direito de Cunha, Alves foi alado ao posto aps articulao do chefe da Cmara e do vice-presidente da Repblica, Michel Temer. Aps a demisso, Lages foi nomeado chefe de gabinete da presidncia do Senado. Para deputados peemedebistas, h ainda outros fatores por trs das crticas de Renan ao texto: a possibilidade de obrigar o governo a, mais uma vez, sentar-se  mesa com ele, que passou de fiador do Planalto a aliado imprevisvel, e tambm a chance de "polir" sua imagem diante da opinio pblica. "Ele quer ficar no centro das atenes. A tramitao do projeto  um instrumento para ter na mo o governo, que vai pedir para alterar a proposta, e o senador ainda aproveita para limpar sua imagem perante a sociedade, tirando seu nome da  pauta da Lava-Jato", avalia um correligionrio. Entre os senadores peemedebistas, mudanas no texto so dadas como certas. O lder do partido no Senado, Euncio Oliveira (CE), tambm anunciou posio contrria  terceirizao das atividades-fim. "Onde couber emenda, vou apresentar alteraes", afirmou. Cunha, de sua parte, j tem engatilhada uma reao caso o Senado no se empenhe a aprovar o texto: planeja barrar projetos considerados prioritrios pelos senadores que aguardam anlise da Cmara. Alm disso, ele afirma que a Casa  que dar a ltima palavra no assunto, porque o projeto da terceirizao foi proposto originalmente por um deputado. 
     Representantes empresariais prximos s negociaes temem que o projeto acabe desfigurado. Crem, contudo, que a reao de Renan no passa de jogo poltico e que o presidente do Senado acabar defendendo o esprito original da lei. 

A DISPUTA PELA TERCEIRIZAO
O projeto aprovado na Cmara representa um avano, mas corre o risco de ser desfigurado 

Como  hoje? 
No h nenhuma regulamentao sobre a terceirizao de funes dentro de uma empresa. O Tribunal Superior do Trabalho, em 1994, estabeleceu que uma empresa no pode terceirizar os servios de sua atividade principal, ou atividade-fim (a gerncia, por exemplo, no caso dos bancos), apenas os servios considerados secundrios, ou atividades-meio (vigilncia e faxina). 

Qual o problema? 
H milhares de processos na Justia do Trabalho que contestam a terceirizao de empregos, por causa, entre outras razes, da dificuldade para distinguir atividade-fim de atividade-meio. 

O que diz a lei aprovada pela Cmara? 
Autoriza a terceirizao para todas as atividades. Um banco poderia, em tese, subcontratar no apenas faxineiros e vigias, mas tambm gerentes e analistas. As estatais, entretanto, continuariam proibidas de terceirizar funcionrios de suas atividades principais. 

Haver diminuio de direitos trabalhistas? 
A princpio no. As regras so as mesmas para os terceirizados. 

Por que o governo  contra? 
Porque teme perder arrecadao de tributos e contribuies trabalhistas. 

Qual a ameaa ao projeto? O
 texto precisa passar no Senado. Alguns senadores defendem a terceirizao apenas para atividades-meio. Se assim for, a lei manter os conflitos atuais - e a enxurrada de processos. 


3#4 O CANDIDATO MORA AO LADO
O voto distrital aproxima o eleitor dos polticos e barateia campanhas. A boa notcia: avanou no Senado a proposta que o institui nas eleies para vereador.
EDUARDO GONALVES E GABRIEL CASTRO

     Cada vez que os brasileiros saem s ruas para demonstrar sua insatisfao com a maneira como o pas  conduzido, polticos sacam da manga o tema da reforma poltica como a panaceia para os problemas nacionais. Foi assim em 2013, quando o governo chegou a propor um desarrazoado plebiscito sobre a questo.  assim em 2015. Dada a complexidade do tema, o que  apresentado como remdio com frequncia atende apenas aos interesses dos prprios polticos. O PT, por exemplo, prega o fim do financiamento privado de campanha e o voto em lista fechada: duas propostas que favoreceriam a sigla acima de tudo. J o PMDB tenta substituir o sistema proporcional vigente por um que favorece lideranas tradicionais  o "distrito". As discusses nas ruas e na internet mostram que cresce o nmero de pessoas comuns atentas para o assunto, o que  positivo, uma vez que a reforma deve mesmo ocorrer em um futuro prximo. O primeiro passo foi dado nesta semana. E foi um passo alvissareiro: foi aprovado na Comisso de Constituio e Justia do Senado um projeto de lei do senador Jos Serra (PSDB-SP) que institui o voto distrital nas eleies para vereador em cidades com mais de 200.000 eleitores. 
     H dois "sabores" de voto distrital, o puro e o misto. No primeiro, elegem-se apenas os candidatos mais votados em cada distrito. No segundo, metade das vagas  preenchida por polticos de uma lista preordenada por cada partido. Nos dois casos, h um ganho de racionalidade: o voto distrital aproxima os polticos dos eleitores e barateia as campanhas. Mas os ganhos so maiores no sistema puro. "A lista, assim como o distrito,  uma forma de salvaguardar o poder dos caciques partidrios", diz o cientista poltico Luiz Felipe Dvila, um defensor ativo do voto distrital. 
     O projeto de Jos Serra institui o modelo puro na eleio de vereadores. Para entender seu efeito, tome-se como exemplo a capital paulista. As 55 cadeiras do Legislativo seriam atribudas a 55 distritos eleitorais de tamanho semelhante. Em vez de analisar as propostas de mais de 1000 candidatos, o eleitor teria de decidir apenas entre aqueles que representam seu distrito. Diz o cientista poltico Paulo Kramer, professor da Universidade de Braslia (UnB): "A possibilidade de cobrana  muito maior. Afinal, o deputado reside no distrito. Se no corresponder s expectativas, no ter onde buscar voto nas prximas eleies". Quanto aos polticos, eles no mais se digladiariam pela ateno dos 8,8 milhes de eleitores paulistanos. A campanha seria voltada para grupos de cerca de 160.000 pessoas, o que derruba os seus custos. 
     O projeto de lei 25/2015 levou menos de trs meses para ser submetido a votao na CCJ. Foi aprovado por 15 votos a 3 na ltima quarta-feira, em carter terminativo  ou seja, ser encaminhado diretamente  Cmara, sem a necessidade de passar pelo crivo do plenrio se no houver recurso contra o texto at esta semana (o recurso que obriga a apreciao pelo plenrio tem de ser apresentado por ao menos nove senadores). Foram contrrios  proposta apenas os petistas Jos Pimentel (CE) e Humberto Costa (PE), alm de Marcelo Crivella (PRB-RJ). A senadora Gleisi Hoffmann (PT-PR) no seguiu a orientao do partido e votou pela aprovao. O apoio mais significativo partiu do relator do tema, o lder do PMDB no Senado, Euncio de Oliveira. "Temos com o Brasil o compromisso de no ir para as eleies de 2016 com o mesmo sistema eleitoral", afirmou. De fato, se for sancionado at outubro, o novo sistema j valer para a disputa do ano que vem. O prprio Serra, porm, reconhece que a luta na Cmara no ser to simples. "O esforo vai ser bem maior", afirma. "Mas, como no Senado a proposta foi aprovada a jato, os deputados tero tempo para debater." 
     Na Cmara, o projeto deve ser apensado s propostas de reforma poltica que esto sendo discutidas desde fevereiro em uma comisso especial, e l deve sofrer alteraes. O presidente do colegiado, Rodrigo Maia (DEM-RJ), j deixou claro que se ope  medida. O relator da comisso, Marcelo Castro (PMDB-PI), tambm no cr que a proposta passe como chegou do Senado. "A comisso est dividida entre distrito e distrital misto.  difcil que se aceite o que veio, ou seja, o distrital puro", diz Castro. O projeto de Serra  visto como ponta de lana para a aplicao do voto distrital nos pleitos para os legislativos estadual e federal, da a previso de um debate acirrado. Mas o debate, desta vez, est no trilho certo. 

UM AVANO POLTICO
Como funciona hoje: sistema proporcional
Todos concorrem contra todos. As cadeiras nas cmaras de vereadores so divididas entre os partidos e as coligaes segundo um clculo de quocientes que depende do nmero de votos vlidos. Quanto mais votos uma legenda tiver, mais vagas poder preencher.

A proposta: sistema distrital
A cidade  dividida em distritos, cada um com seu prprio eleitorado e um nico candidato de cada partido ou coligao. O mais votado de cada distrito conquista o mandato.

AS VANTAGENS DA MUDANA
* Como a disputa  localizada, o modelo distrital aproxima o eleitor dos candidatos e reduz o custo das campanhas.
* Some a figura do "puxador de votos" - o poltico-celebridade que atrai muitos eleitores, ajuda o partido a aumentar sua bancada no sistema proporcional e s vezes conquista um mandato at mesmo para candidatos com votao pfia.


3#5 COM O DINHEIRO DOS OUTROS,  FCIL
Enquanto o pas aperta o cinto, o Congresso triplica a verba destinada a bancar os partidos. O governo permite o aumento e ainda acena com coisa pior: o financiamento pblico de campanha.
MARIANA BARROS E PIETER ZALIS

     O governo federal deve anunciar nas prximas semanas um congelamento de gastos de 60 bilhes de reais, parte do esforo para comear a pr as contas pblicas em ordem. Nenhuma rea deve ser poupada, nem mesmo a educao, que j havia perdido 7 bilhes de reais no incio deste ano. A nica e escandalosa exceo sero os partidos polticos. Enquanto todo mundo aperta o cinto, eles comemoram o aumento. 
     Na semana passada, a presidente Dilma Rousseff sancionou sem vetos a proposta feita pelo Congresso que eleva em 170% a verba do fundo partidrio. O fundo tem como origem os impostos pagos pelo contribuinte e como destino os cofres de todos os 32 partidos polticos brasileiros registrados no Tribunal Superior Eleitoral. O dinheiro  distribudo de acordo com a votao que as siglas obtiveram na ltima eleio e pode ser usado livremente por elas  para pagar funcionrios ou bancar despesas de campanha, por exemplo. Como, para receb-lo, no  necessrio nem mesmo ter representao na Cmara, partidos que no elegeram um nico deputado federal em 2014, como PSTU e PCB, esto aptos a abocanhar algo da ordem de 1,4 milho de reais cada um nas prximas eleies. "O aumento refora a ideia de que criar um partido  um bom negcio", afirma Natlia Paiva, diretora executiva da Transparncia Brasil. 
     A deciso do governo de no vetar a quase triplicao da verba do fundo partidrio vem em um momento em que os maiores partidos brasileiros penam para fazer caixa, dado o envolvimento da maioria na srie de escndalos de corrupo e o receio dos doadores em figurar no prximo. O autor da emenda parlamentar que props o aumento, o senador Romero Juc (PMDB-RR), justificou a iniciativa afirmando  ter sido procurado por representantes das siglas "desesperados" com a seca de doaes. O maior beneficiado pela alta foi o PT (veja o quadro abaixo), tambm o mais atingido pelas revelaes da Operao Lava-Jato. Seu ex-tesoureiro Joo Vaccari Netto est atrs das grades desde a semana passada. 
     O ministro das Cidades, Gilberto Kassab, exmio especialista na arte de criar partidos, afirmou que o aumento do fundo partidrio "pode ter chocado a opinio pblica", mas  e aqui o ministro pretendia apontar o suposto lado vantajoso da coisa   um primeiro passo para a implementao do financiamento pblico de campanhas no Brasil. O financiamento pblico  uma ideia fixa que o PT costuma defender com um sofisma (" melhor para a populao sustentar os partidos do que conviver com a corrupo decorrente do financiamento privado") arrematado por uma verdade ("A democracia tem seu custo"). O ministro Kassab repetiu as duas coisas na ltima semana. 
     Segundo o Instituto Internacional pela Democracia e Assistncia Eleitoral (Idea, na sigla em ingls), a mais respeitada organizao para polticas partidrias no mundo, o nico pas com financiamento exclusivamente pblico de campanha  o Buto. O mais importante: nada garante que o financiamento pblico acabe com o caixa dois e a corrupo  estudos apontam que o contrrio  que pode ocorrer. O cientista poltico britnico Michael Pinto-Duschinsky analisou a legislao eleitoral de 143 pases e concluiu que, se um partido ou um candidato obtm verba pblica, e sabe que todos os seus concorrentes tambm tero acesso a esse dinheiro, tender a querer passar a perna nos adversrios para conseguir mais recursos que eles  e o caixa dois  um dos meios para isso.  verdade que a democracia tem um preo. Mas no  esse que os partidos, com o apoio da presidente, querem cobrar. 

DIRETAMENTE DO BOLSO DO CONTRIBUINTE
As verbas pblicas para os partidos aumentaram 170% de 2014 para 2015
(valores atualizados, em milhes de reais)

1 MANDATO FHC
1994: 3,6
1995: 47 (O Fundo Partidrio, referendado pela Constituio de 1988, recebia apenas dinheiro arrecadado com multas eleitorais. Com a promulgao da Lei dos Partidos, em setembro de 1995, passa a receber dinheiro direto do Oramento)
1996: 147
1997: 127
1998: 134

2 MANDATO FHC
1999: 137
2000: 176
2001: 195
2002: 173

1 MANDATO LULA
2003: 215
2004: 198
2005: 184
2006: 190

2 MANDATO LULA
2007: 187
2008: 198
2009: 226
2010: 211

1 MANDATO DILMA
2011: 329 (O Congresso aprova adicional de 100 milhes de reais)
2012: 335
2013: 325
2014: 320

2 MANDATO DILMA
2015: 867 milhes (O fundo  quase triplicado em ano de ajuste fiscal e atinge seu maior volume desde que passou a receber verbas federais)

QUEM SAI GANHANDO 
Sigla que teve mais votos na ltima eleio, o PT foi o maior beneficiado pelo aumento (em milhes de reais)
PT
2014: 50,5
2015: 117,4

PMDB
2014: 35,9
2015: 95,9

PSDB
2014: 34
2015: 93,7


3#6 ARTIGO  J.R. GUZZO  MAIORIA SEM MEDO
     Est em circulao na praa, de uns tempos para c, mais um desses problemas que praticamente ningum suspeitava que pudessem existir no Brasil  como a febre chikungunya, objeto de tensos alertas das autoridades de sade pblica nas ltimas semanas, o futuro incerto dos bagres do Rio Xingu e outras calamidades ocultas que no incomodavam em nada o cidado brasileiro at lhe informarem que era melhor, para o seu prprio bem, que ele comeasse a se incomodar. O novo item que vem se somar ao rol das preocupaes nacionais , segundo o noticirio poltico, o crescimento da "direita" no Brasil. No mnimo, de acordo com as denncias correntes, h um avano do pensamento "conservador" no pas  e esse avano  descrito como um "risco", ou uma "ameaa", ou mesmo um "perigo". O grito de alarme mais recente vem do Partido dos Trabalhadores. Em nota oficial expedida h pouco pelo seu diretrio nacional, o PT diz que estamos diante de uma "escalada das foras conservadoras", de "profundo carter reacionrio". Essa ofensiva, segundo a nota, acontece nas ruas e nas instituies; envolve, pelo que est no texto, ideias, informaes, questes econmicas, direitos civis e a "manipulao" das investigaes policiais sobre corrupo no governo. 
      estranho. Em qualquer sociedade democrtica o pensamento conservador  to legtimo quanto qualquer outro  o que poderia haver de errado em acreditar que existem valores, convices e costumes que devem ser conservados por parecerem corretos a quem os admira e defende? No deveria ser um "risco", nem uma "ameaa", nem um "perigo" defender ideias, por exemplo, ou achar que uma posio econmica  melhor que outra, ou opinar sobre quais direitos a lei deve ou no deve reconhecer. Todo cidado brasileiro, desde que se comporte dentro da lei, tem direito a suas prprias opinies, crenas ou julgamentos sobre o que  bom ou ruim. No h nada a fazer, muito simplesmente, se as posturas que lhe agradam so consideradas direitistas, ou conservadoras, por quem discorda delas; a Constituio no probe que algum seja de "direita", nem obriga ningum a ser de "esquerda". Mas o PT no v as coisas assim. Prega, como verdade indiscutvel, que os cidados s podem se dividir entre conservadores e "progressistas"; quem  conservador  automaticamente "contra o progresso", e os direitos constitucionais no deveriam valer para gente que  contra o progresso. 
     Ao se declararem escandalizados com a "escalada das foras conservadoras", o PT e o governo, na verdade, no esto interessados em fazer bonito num debate sobre cincia poltica. Discursam sobre o "conservadorismo", mas o que os preocupa neste momento, na vida real,  a constatao de que a maioria da populao brasileira no est do seu lado. Na ltima vez em que foi consultada, nas eleies presidenciais de outubro do ano passado, essa mesma populao reelegeu Dilma Rousseff. Mas foi a vitria mais difcil que o partido teve desde que o ex-presidente Lula ganhou o primeiro dos seus dois mandatos, em 2002: encerrada a apurao, verificou-se que 90 milhes de pessoas, ou mais de 60% dos eleitores, no votaram em Dilma e que 51 milhes deles votaram contra, preferindo o candidato da oposio. A maioria eleitoral serviu para manter Dilma na Presidncia, mas no foi suficiente para dar ao PT a possibilidade de mandar sozinho no Brasil, com os aliados na posio de subalternos  a "hegemonia" que suas lideranas acham indispensvel para exercer o governo. No houve, de l para c, nenhum esforo para entender que a maioria verdadeira estava do lado de fora do Palcio do Planalto, do Instituto Lula e do comit central do partido. Resultado: os desastres em srie que vm sendo o po de cada dia da vida pblica brasileira nos ltimos seis meses. 
     A maioria que realmente perturba o mundo oficial  visvel sem maiores esforos. O PT, incluindo Lula, e a nebulosa que se chama "esquerda", incluindo os "movimentos sociais", so obviamente minoritrios nas ruas. No conseguiro, nem hoje nem amanh, colocar em praa pblica nada remotamente comparvel s multides de maro e abril. Mais de 60% dos brasileiros se declaram a favor do impeachment da presidente da Repblica, por consider-la cmplice da corrupo na Petrobras, ou omissa; outros tantos acham que o seu governo  ruim ou pssimo. Como sustentar que uma rejeio desse tamanho seja coisa de uma minoria? Pela primeira vez, nas pesquisas de opinio, os entrevistados colocam a corrupo entre os problemas mais graves do Brasil, e as manifestaes de massa comprovam esse sentimento  enquanto o PT afirma, h anos, que a indignao contra a desonestidade  apenas "moralismo" de uma pequena elite. O partido acaba de ter o seu tesoureiro nacional encarcerado num xadrez de polcia, e a nica ideia que lhe ocorreu a respeito foi protestar contra a priso;  muito pouco provvel que a maioria dos brasileiros tenha esse mesmo ponto de vista. 
     A questo no se resume ao desmanche do PT na opinio pblica: mais complicado que isso, no dia a dia das decises polticas,  a perda da maioria que o governo manteve no Congresso, para todos os efeitos prticos, durante os ltimos doze anos. Ao longo desse tempo, na maior parte das ocasies em que quis aprovar ou rejeitar alguma coisa, o PT viveu sem problemas; hoje, ao contrrio, s tem problemas. Desde que o deputado Eduardo Cunha, do PMDB, despedaou a tentativa suicida feita pelo Planalto de derrot-lo na eleio para a presidncia da Cmara, a maioria mudou de lado. No momento, como vem se comprovando a cada confronto no plenrio, o governo fica ali entre 130 e 140 votos, num total de 513 deputados; descobriu que  uma iluso imaginar que conseguiria continuar ditando as ordens com apenas 25% da Cmara dos Deputados a seu favor. Naturalmente, o barulho das ruas, das pesquisas e dos mandados de priso contra suspeitos de ladroagem s d mais fora a deputados e senadores que passaram a se opor ao PT; polticos, em qualquer poca e lugar, tm uma alergia invencvel  possibilidade de ficarem do lado errado da opinio pblica. 
     O Congresso, mesmo quando agia sob o controle do governo ento cheio de gs, aprovou tempos atrs a Lei da Ficha Limpa e acabou com o imposto do cheque, por sentir que a maioria estava querendo ambas as coisas  no teria por que se comportar de forma diferente agora, ainda mais com a presidente e seu partido vivendo de uma derrota para outra. A verdade  que os deputados, a comear por  Cunha, perceberam que no precisam mais ter medo do PT, de Lula e do "politicamente correto"; j no acham que o "lulismo" pode prejudicar sua vida e atrapalhar sua reeleio, e enquanto se sentirem assim no vo ajudar o governo em nada. Os que so oficialmente aliados ao governo precisam,  claro, defender os cargos e os interesses que tm na mquina pblica. Mas descobriram que est dando para ter, ao mesmo tempo, os benefcios do poder e o conforto de votar contra o governo para fazer cartaz junto aos eleitores. Eis a uma novidade na poltica brasileira. Em trs eleies presidenciais seguidas, de 2002 a 2010, os candidatos da oposio viveram no pnico de se mostrarem diferentes do PT; tinham certeza de que criticar o ex-presidente Lula "tirava voto", e disputavam para ver quem era mais a favor do Bolsa Famlia. Na eleio de 2014 j no foi assim, e agora o jogo  outro. 
     Essa nova postura do Congresso no fica s nas questes polticas  comea a estar presente, tambm, em temas como a reduo da maioridade penal, por exemplo. A maioria dos deputados quer diminuir de 18 para 16 anos a idade em que o indivduo passa a responder pelos crimes que comete. O PT e a esquerda em geral, ou quem assim se descreve, tm mostrado indignao com essa mudana. Mas as pesquisas informam que quase 90% da populao brasileira  a favor da medida   apenas natural, ou inevitvel, que a Cmara fique ao lado de uma maioria to definitiva quanto essa. H considervel alarme, tambm, diante da ao da "bancada evanglica", sempre presente na pauta dos costumes  e especialmente empenhada na oposio ao que se considera a "causa gay". Fazer o qu? Os evanglicos formam o culto religioso que mais cresce no Brasil.  apenas natural que votem nos candidatos que representam sua f  e, como so muitos, sua bancada vem se tornando cada vez maior e mais influente na Cmara dos Deputados. Os parlamentares, em mais um exemplo, querem decidir sobre a demarcao de terras para os ndios; como poderiam ficar ausentes das decises a respeito, se tantos deles representam uma populao francamente contrria  poltica indigenista dos governos? Diante de questes polmicas como essas, e conhecendo to bem os humores do seu plenrio, o presidente Cunha tem um remdio imbatvel: "Pe para votar". Minorias, como se sabe, no ganham votaes. 
      este o problema real da "escalada conservadora" que o PT est denunciando  ela s tem fora porque reflete os anseios da maioria, certa ou errada, e no momento isso  um perigo para o governo. William Rehnquist, juiz da Suprema Corte dos Estados Unidos de 1972 a 1986, tem algo muito interessante a dizer a respeito. "A longo prazo, as maiorias  que acabam por definir quais so os direitos constitucionais das minorias", escreveu ele num dos seus textos mais admirados. Rehnquist esclarece que a "maioria" de que est falando no significa a maioria dos nove juzes da Suprema Corte americana, "limitada e transitria", mas a maioria da populao  e no como foi no passado, ou como ser no futuro, mas como se apresenta no dia de hoje. Ela se exprime, sobretudo, atravs dos parlamentares que o eleitorado elege como seus representantes no Congresso. Haveria alguma alternativa melhor? 
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4# ECONOMIA 29.4.15

     4#1 A CONQUISTA DA NORMALIDADE
     4#2 EFEITO CASCATA NO PIB

4#1 A CONQUISTA DA NORMALIDADE
Ao publicar o balano de 2014, a Petrobras ps fim a uma aberrao. Mas falta muito para a estatal virar a pgina e deixar no passado todos os vcios da era Duque-Costa.
MALU GASPAR

     Depois de meses esperando por um clculo das perdas da maior companhia brasileira com a roubalheira do petrolo, boa parte dos cidados brasileiros respirou aliviada na semana passada, quando a Petrobras publicou os resultados financeiros do ano 2014. O fato de a estatal pelo menos ter conseguido divulgar um balano foi, sem dvida, um avano. Era o primeiro passo para ela encerrar esse captulo nefasto de sua histria, afastando o risco de ter suas dvidas cobradas antecipadamente e dando incio  ansiada "refundao". Mas a tranquilidade durou pouco. Primeiro porque o tamanho do estrago foi imenso. S em subornos, escoaram 6,2 bilhes de reais, no maior propinoduto de que se tem notcia no mundo. Ecos da corrupo, como projetos malfeitos e por isso mesmo superfaturados  e, em menor  escala, a queda no preo do petrleo , fizeram ir pelo ralo outros 44,6 bilhes de reais. Ou seja: na era do petrolo, a Petrobras empobreceu 50,8 bilhes de reais. Outros 7,3 bilhes de reais foram perdidos no setor eltrico e em refinarias premium. No ano passado apenas, o prejuzo foi de 21,6 bilhes. Em suas explicaes, a diretoria da estatal admitiu ter tomado decises erradas de investimento. A inpcia, aliada a interesses corruptos, pesou mais do que a lgica de mercado. Ainda assim, a Petrobras deixou no ar muitas dvidas importantes: a empresa e o governo, afinal, aprenderam a lio? Vo mudar sua conduta para impedir que os mesmos erros voltem a ser cometidos? 
     Por ora, sobram sinais de que a companhia ainda est bem longe de virar a pgina de verdade. Para comear, a Petrobras tem hoje a maior dvida corporativa do mundo (106 bilhes de dlares at o fim de 2014, o equivalente a 282 bilhes de reais), e crescendo. Para reduzi-la e ainda fazer os investimentos necessrios para gerar mais receitas, teria de arrecadar, segundo clculos conservadores, no mnimo mais 30 bilhes de dlares at 2016. Nessa situao, esperava-se que ou cortasse drasticamente seu plano de investimentos ou demonstrasse de forma clara de onde vai tirar o dinheiro. At agora, porm, no aconteceu nem uma coisa nem outra. A reduo do investimento em 37% para 2016 foi considerada tmida diante das alternativas para arrecadar recursos apresentadas at agora, e o discurso da companhia a esse respeito tem sido confuso. 
     Na teleconferncia com analistas, os diretores disseram que a estatal tem recursos garantidos at o fim do ano (graas a linhas de crdito abertas pelos chineses, pela Caixa Econmica Federal e pelo Banco do Brasil). Segundo eles, a Petrobras no far nenhuma grande capitalizao, no pretende vender campos do pr-sal nem mudar sua poltica de reajuste de preos de combustveis nos prximos meses. A empresa, de acordo com os diretores, pretende se financiar principalmente com o prprio caixa. No dia seguinte, contudo, o presidente, Aldemir Bendine, afirmou que far "parcerias" para diminuir a dvida e disse que a Petrobras vai emitir ttulos no exterior  sem fornecer mais detalhes sobre como se daro tais iniciativas. A mudana no discurso de um dia para o outro produziu uma alta de mais de 4% no valor das aes da companhia s na sexta-feira e fez muita gente feliz no mercado financeiro. No aplacou, porm, a sensao de que h algo fora do lugar. "Faltaram transparncia e coerncia, uma vez que  impossvel arrecadar tanto dinheiro sem vender nada no pr-sal. A impresso  que o governo tem medo de ser tachado de privatizador", diz o consultor Adriano Pires, do Centro Brasileiro de Infra Estrutura. 
     Acionistas e investidores continuam no escuro ainda quanto a outro item politicamente sensvel, mas crucial: qual ser, daqui para a frente, a poltica de preo para os combustveis? Entre 2011 e meados de 2014, por determinao do governo, a Petrobras perdeu 80 bilhes de reais vendendo gasolina e diesel no Brasil a um preo mais baixo do que o pago no exterior. Bancou, assim, o aumento do consumo no pas, mas estropiou as prprias contas e dilapidou a capacidade de investir para continuar crescendo. Em 2013, a estatal chegou a assumir publicamente o compromisso de adotar uma frmula de reajuste para recuperar as perdas. Mas logo abandonou a promessa. Uma das perguntas mais repetidas na semana passada era se, na nova fase, a tal formula ser reabilitada. Nada disso, disse o diretor financeiro, Ivan Monteiro, repetindo o discurso da gesto anterior  nunca praticado: "os preos seguiro padres de mercado". 
     Numa questo, porm, a Petrobras foi bastante clara: apesar de ter decidido no pagar dividendos aos acionistas, j que no houve lucro  o que no acontecia desde 1991 , ela vai, sim, conceder participao nos lucros e resultados (PLR) aos funcionrios. A despesa de 856 milhes de reais  at pequena perto dos dividendos distribudos nos ltimos anos, em torno de 9 bilhes. "H um acordo antigo com os sindicatos sobre esse pagamento, e ns cumprimos nossos acordos", disse o diretor Monteiro. Pode ser. Mas a atitude no pegou bem perante os investidores que adquiriram aes da Petrobras nas ltimas semanas confiando numa declarao da presidente da Repblica, Dilma Rousseff,  agncia Bloomberg, publicada no dia 1 de abril. "A Petrobras vai dar lucro. A Petrobras vai distribuir dividendos", afirmou Dilma, prometendo "medidas as mais drsticas, aquelas que internacionalmente todas as empresas que tiveram em algum momento situaes similares tomaram e melhoraram". Ao que parece, era s brincadeira de 1 de abril, porque o que aconteceu foi exatamente o oposto. 
     Por isso, apesar do otimismo do fim da semana, motivado principalmente pelo fato de a estatal finalmente ter um balano, o cenrio ainda  de incerteza. Os problemas que levaram ao buraco de 50,8 bilhes  sem contar as perdas com o subsdio aos combustveis  no desapareceram. O conselho da estatal ainda  dominado por indicaes polticas, os processos decisrios continuam os mesmos e no h, no horizonte, novidade que permita supor que no surgiro outros elefantes brancos como a Refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco (menos 9 bilhes de reais por causa do superfaturamento e da m gesto), ou o Complexo Petroqumico do Rio de Janeiro, o Comperj (que consumiu 25,8 bilhes de reais e, agora, est "postergado" indefinidamente). "A Petrobras precisa convencer a sociedade de que aprendeu a lio e est, de fato, tomando novo rumo", resumiu o economista e ex-diretor-geral da Agncia Nacional do Petrleo David Zylberstajn. O prximo teste sero as notas de risco das agncias de rating Fitch e Standard & Poors, que por ora mantm a Petrobras na faixa de grau de investimento com perspectiva negativa. Teme-se que, ao refazer suas contas, sigam o movimento da concorrente Moody's e rebaixem as aes a investimento especulativo. Quem sabe, a, o trauma seja suficiente para provocar a to ansiada guinada em direo  eficincia e  racionalidade. Porque os 50,8 bilhes de perdas com o petrolo, pelo jeito, no deram nem para a sada. 

DO LUCRO AO PREJUZO
Como a m administrao, a interferncia poltica e o propinoduto do petrleo sangraram a Petrobras (em reais)
* Lucro sem descontos (2014) 36,4 bilhes
* Perdas com a m administrao e a corrupo 48,2 bilhes
- Complexo Petroqumico do Rio de Janeiro (Comperj) 21,8 bilhes
- Refinaria Abreu e Lima e Petroqumica Suape (PE) 12,1 bilhes
- Propinas (contratos investigados na Lava-Jato) 6,2 bilhes
- Perdas com contratos no setor eltrico 4,5 bilhes
- Abandono das refinarias Premium no Cear e no Maranho 2,8 bilhes
- Outros 0,8 bilho
* Prejuzo lquido 21,6 bilhes

AS OUTRAS PERDAS
A corrupo  apenas parte das dificuldades da Petrobras
* Valor de Mercado (em reais)
2010: 380 bilhes
2014: 128 bilhes
Perda: 252 bilhes
* Dvida Lquida (em reais)
2010: 61 bilhes
2014: 282 bilhes
Aumento: 211 bilhes
* Relao Dvida Lquida/EBITDA (Gerao de Caixa)
2010: 1,03
2014: 4,77
Recomendvel: Abaixo de 2
* Subsdio aos Combustveis
80 bilhes de reais de perda acumulada com a venda de combustveis entre 2011 e 2014.

UMA BSSOLA MAIS CONFIVEL
O escndalo das fraudes da Enron, empresa americana que era uma das maiores do planeta no setor de energia, serviu como estopim para o aprimoramento das normas contbeis no mundo corporativo. Maquiagens contbeis, descobertas em 2001, haviam ocultado por anos a fragilidade das finanas da companhia, que apresentava lucros fictcios enquanto cultivava uma relao de troca de favores e doaes vultosas a polticos. Tudo com o aval de uma auditoria at ento respeitada, a Arthur Andersen. Foi a maior bancarrota da histria americana: a Enron tinha ativos estimados em 50 bilhes de dlares. A partir do episdio, rgos regulatrios estreitaram as regras. A Petrobras precisa seguir tais parmetros, obrigatrios para empresas brasileiras desde 2010. A atualizao no valor de ativos, como refinarias e blocos de explorao, atende aos requisitos do padro internacional de contabilidade, conhecido pela sigla em ingls IFRS, de International Financial Reporting Standards. Estimar um preo atualizado para projetos como o Comperj tem o efeito colateral de gerar oscilaes bruscas no patrimnio, mas se traduz em informao mais precisa aos investidores. 


4#2 EFEITO CASCATA NO PIB
O corte profundo nos investimentos da Petrobras deixa empresas em apuros financeiros e amplia o desemprego.
BIANCA ALVARENG

     A construo do Complexo Petroqumico do Rio de Janeiro, o Comperj, foi anunciada com a imodstia tpica do ento presidente Lula, em 2006. Seriam criados mais de 210.000 empregos diretos e indiretos durante as obras e, depois, com a operao do polo industrial. H dois anos, a obra chegou a contar com 35.500 funcionrios. Quando as revelaes da Lava-Jato vieram  tona, no ano passado, o Comperj despontou como uma das obras no esquema de superfaturamento ligado  corrupo. O empreendimento foi planejado e construdo para ser um complexo petroqumico, com duas refinarias e uma planta de produo de resinas, mas foi reduzido a uma refinaria (ainda inacabada). A inaugurao ocorreria em 2011, porm no h mais data prevista. Sufocada pela crise causada pelo petrolo, a Petrobras congelou os contratos com as empreiteiras responsveis pelas obras, o que resultou em demisses em massa. Restaram menos de 5000 trabalhadores, segundo o sindicato regional. Na ltima quarta-feira, a Petrobras anunciou que interromper os investimentos no Comperj. A avaliao de analistas  que a empresa s ter condies de retomar o projeto em 2018, o que deve fazer subir o prejuzo por causa de custos relacionados  manuteno das instalaes e ao fechamento das vagas restantes. Um documento interno da estatal chegou a estimar uma perda de at 45 bilhes de reais. 
     A reviravolta do Comperj  emblemtica dos novos tempos para a Petrobras. O presidente da empresa, Aldemir Bendine, disse que a deciso de investir agora leva em considerao o caixa disponvel e as perspectivas de gerao de recursos. A empresa reduziu em quase 20% a sua previso de investimentos neste ano em relao a 2014, de 35 bilhes de dlares para 29 bilhes de dlares. Para 2016, a projeo  ainda menor, de 25 bilhes de dlares. Sero priorizados projetos que apresentem maior taxa de retorno, relacionados, portanto,  atividade de explorao e produo do petrleo, em detrimento do refino e da distribuio e de outras reas. A estratgia ajudar a preservar o caixa da empresa e a reduzir a presso sobre o seu nvel de endividamento, que est muito alm do recomendado para companhias financeiramente saudveis. "A reduo dos investimentos da Petrobras afeta no s o setor de petrleo e gs como os elos anteriores e posteriores da cadeia produtiva. H um efeito multiplicador negativo sobre o emprego, os salrios, a produo e a arrecadao de impostos", diz Gesner de Oliveira, scio da consultoria GO Associados. Neste ano, o impacto para baixo no PIB pode chegar a 1 ponto percentual, diz o economista (o PIB, portanto, pode recuar 1,5%). De acordo com a consultoria Tendncias, a cada real aplicado pela Petrobras em projetos, h uma gerao de 1,90 real na economia, o que d a dimenso do potencial de danos do escndalo do petrolo. Desde o fim do ano passado, 23 fornecedoras esto impedidas de ser contratadas e de participar de licitaes da empresa por causa da suspeita de envolvimento no esquema de corrupo. Outras so afetadas diretamente pela conteno dos gastos da petrolfera. Endividadas, com dificuldade para obter crdito no mercado e com a gerao de receitas comprometida, as companhias enfrentam graves apuros financeiros. O Grupo Schahin, a OAS, a Galvo Engenharia e a Alumini entraram com pedido de recuperao judicial. Algumas empresas, como a Engevix e a UTC, puseram ativos  venda. A OAS tambm se viu obrigada a se desfazer de negcios promissores, entre eles a participao no consrcio que administra o Aeroporto de Guarulhos. 
     O mercado de trabalho sofre as consequncias: o nmero de empregos diretos e indiretos da estatal diminuiu 17% no ltimo ano. A indstria naval estima a demisso de mais de 40.000 pessoas, o equivalente a metade da mo de obra empregada no ano passado. Um estudo da Fundao Getulio Vargas (FGV) prev que o corte de postos de trabalho poder atingir 1 milho de trabalhadores em decorrncia do efeito cascata da Lava-Jato.
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5# INTERNACIONAL 29.4.15

     5#1 ELES VO CONTINUAR CHEGANDO
     5#2 OS AVIES DA COCANA

5#1 ELES VO CONTINUAR CHEGANDO
A Europa no pode estimular a entrada de migrantes clandestinos nem deixar que se afoguem no Mediterrneo. Combater o trfico humano  o melhor paliativo NATHALIA WATKINS

     A Unio Europeia decidiu triplicar o oramento dedicado ao resgate de migrantes no Mar Mediterrneo e combater os traficantes de seres humanos em uma reunio emergencial na quinta-feira 23, em Bruxelas. O encontro aconteceu depois que um barco pesqueiro com 950 migrantes vindo de Trpoli, na Lbia, naufragou no domingo 19, ao colidir com um navio de carga portugus. Os viajantes eram da Sria, da Somlia, da Eritreia, de Mali, de Serra Leoa e do Senegal. Apenas algumas dezenas de pessoas sobreviveram, entre elas o capito do barco, o tunisiano Mohammed Ali Malek, de 27 anos, e o tripulante srio Mahmud Bikhit, de 25. Eles foram presos e respondero pelo crime de trfico de pessoas. As medidas anunciadas em Bruxelas baseiam-se na convico de que, independentemente de existir uma estratgia para resgatar os nufragos ou no, o fluxo de migrantes no se altera. Poucos so os que desistem de sair de um pas falido ou em guerra por causa do risco de morrer na travessia do Mediterrneo. "Na ltima dcada, ficou claro que qualquer poltica que tente frear o fluxo apenas o move de lugar. Novas rotas surgem, porque a motivao para viajar prevalece", diz a australiana especialista em migrao Arezo Malakooti, da consultoria Altai. 
     Desde 2000, mais de 22.000 pessoas morreram tentando cruzar o Mediterrneo. Estima-se que 1 milho de "migrantes econmicos", aqueles que fogem da pobreza, e refugiados, que tentam escapar de conflitos armados e perseguio poltica, estejam aguardando um lugar nos botes de borracha e navios pesqueiros para fazer a travessia. A nova operao de salvamento europeia contar com os mesmos recursos da extinta Mar Nostrum, da Itlia, mas no atuar em guas internacionais e s responder a emergncias. A esperana de que o combate ativo aos traficantes funcione vem da experincia na Somlia, onde uma ao internacional conseguiu reduzir a pirataria no Oceano ndico. No caso do Mediterrneo, isso implicar operaes militares para destruir embarcaes no litoral lbio antes mesmo que os traficantes as usem para transportar migrantes e refugiados. Desde a queda do ditador Muamar Kadafi, em 2011, o poder est sendo disputado por grupos armados. Com isso, o nmero de barcos abarrotados de migrantes que partem da Lbia quadruplicou em um ano. Cada passageiro paga de 400 a 2000 dlares aos traficantes. 
     O relativo consenso europeu em torno dos resgates no mar e do combate aos traficantes no se estende  outra ponta do problema: o que fazer com os que completam a viagem. H uma proposta para direcionar as pessoas para diferentes pases com base em cotas, dependendo da necessidade e do perfil dos migrantes. Outra opo  permitir que refugiados de guerra possam requerer asilo em embaixadas europeias no norte da frica ou no Oriente Mdio, evitando, assim, o risco da viagem clandestina. No caso de uma negativa, os candidatos poderiam tentar outros destinos. Essa soluo, porm, no inibiria os "migrantes econmicos". Eles representam cerca de metade de toda a onda migratria atual. Para esse grupo, uma das sadas seria criar programas de trabalho temporrio na Europa. Aes que frustrem os barcos fora dos limites territoriais europeus e conduzam os migrantes para outros lugares so peremptoriamente descartadas. "Isso seria moralmente inaceitvel e s redirecionaria o problema para outro pas, ainda menos capaz de lidar com ele", diz Aspasia Papadopoulou, do Conselho Europeu de Refugiados e Exilados. A certeza de que podem ficar na Europa se sobreviverem  travessia, porm, apenas incentiva mais pessoas a tent-la. 
COM REPORTAGEM DE PAULA PAULI


5#2 OS AVIES DA COCANA
Coronel boliviano confirma o fluxo areo de drogas, armas e militares entre Bolvia, Venezuela e Ir, e acusa o presidente Evo Morales de participao direta no esquema.
DUDA TEIXEIRA

     Um narcoestado torna-se realidade quando um governo  conivente com o trfico de drogas e divide o poder com os criminosos. O caso mais ilustrativo  o da Bolvia, governada pelo presidente Evo Morales, lder sindical de produtores de coca, e tambm elo de uma trama internacional formada por Venezuela e Ir. Nos ltimos anos, avies militares venezuelanos sobrevoaram o territrio brasileiro para levar  Bolvia tropas, armas e viaturas militares. De l, retornaram para a Venezuela com toneladas de cocana. Parte da droga era embarcada em um voo comercial com destino a Damasco e Teer. Na volta, o voo trazia dinheiro e terroristas. O trecho entre Caracas e o Oriente Mdio foi apelidado de "aeroterror", e funcionou at 2010. Esse "trfico" areo, que tem sido denunciado por VEJA desde 2011 com base em documentos confidenciais da polcia boliviana e da diplomacia brasileira, foi confirmado na semana passada por German Cardona lvarez, um coronel do Exrcito boliviano. 
     Cardona est refugiado na Espanha. Ele diz ter recebido ameaas em seu pas por ter enviado ao Comando do Exrcito, no dia 20 de fevereiro, um relatrio de trinta pginas com denncias de envolvimento de membros do governo em casos de corrupo e narcotrfico. A acusao mais grave  que Evo Morales negociava pessoalmente os envios de cocana para a Venezuela. Cardona reuniu fatos que presenciou como assessor jurdico do Exrcito e histrias que escutou de autoridades municipais do Chapare, a principal regio produtora de coca do pas. Ele diz ter apenas cumprido com sua obrigao de expor aos superiores as informaes que recebia. Seu relatrio foi desviado e ele passou a receber ameaas de Jos Hugo Moldiz Mercado, ministro de governo. 
     Como assessor jurdico da Oitava Diviso do Exrcito, Cardona recebeu, em maro de 2009, um pedido para que armas pesadas que tinham sido confiscadas de criminosos fossem colocadas  disposio do governo. Ele se recusou a autorizar a entrega. Recebeu, ento, a visita de seu superior militar, acompanhado de Juan Ramn Quintana, ministro da Presidncia e o segundo homem mais poderoso da Bolvia. O coronel se viu obrigado a ceder e o lote foi transportado em uma ambulncia. Dias depois, Cardona descobriu a finalidade das armas. Elas foram exibidas em pblico e vinculadas aos trs estrangeiros chacinados por uma unidade de elite da polcia boliviana no Hotel las Amricas, em Santa Cruz de la Sierra, no dia 16 de abril. Os mortos foram acusados de fazer parte de um compl para matar o presidente. A revelao do coronel refora a tese de que tudo no passou de uma armao do governo boliviano para culpar a oposio e se perpetuar no poder. 

" TUDO ENTRE MORALES E MADURO"
Ameaado por membros do governo boliviano, o coronel Germn Cardona lvarez fugiu sem a famlia para Madri, na Espanha, onde anos atrs ele fez uma ps-graduao. Ele falou a VEJA por telefone.

Qual  o contedo do relatrio que o senhor enviou ao Comando do Exrcito boliviano em fevereiro? 
Escrevi sobre os avies militares venezuelanos que aterrissam no aeroporto internacional de Chimor, na regio de Chapare, e descarregam armamento militar, como fuzis Kalashnikov e msseis antiareos. Depois, essas aeronaves so carregadas com cocana da Bolvia e do Peru e voam at o aeroporto venezuelano de Maiqueta. L, a carga  transferida para avies do Ir, de Cuba e da Lbia. Depois, a cocana segue at a Europa e os Estados Unidos. Quem toma conta disso na Bolvia  Juan Ramn Quintana (ministro da Presidncia), lvaro Garcia Linera (o vice-presidente) e Raul Garcia Linera, seu irmo. 

O presidente Evo Morales est envolvido? 
Morales vai ao aeroporto de Chimor com a finalidade de fazer negcios quase todos os sbados, desde 2011. As pessoas o recebem e ele fala com gente do governo da Venezuela.  tudo um negcio entre Morales e Maduro. O aeroporto  controlado pelos grupos municipais. As Foras Armadas no entram. 

H outros governos metidos nessa rota de trfico para o Oriente Mdio? 
H alguns anos, foi firmado um convnio secreto entre a Venezuela e o Ir para criar um voo entre Maiqueta e Teer. A bordo, levavam-se cocana, drogas, dinheiro e jihadistas. 

Por que tantas armas esto chegando  Bolvia? 
Eles (os altos funcionrios do governo) querem criar uma fora paralela ao Exrcito.  algo que Quintana, Linera e Morales chamam de Guarda Plurinacional Popular. Pensam que esse povo armado poderia defend-los, se necessrio. 

Quantos avies com cocana j foram para a Venezuela? 
Para saber isso, basta ligar para a Aeronutica do Brasil e perguntar quantos avies militares venezuelanos j receberam permisso para atravessar o espao areo brasileiro. 

So avies grandes, como o Hrcules C-130? 
Sim, mas tambm h outros menores, de marca russa. 

O Brasil entra nessa histria? 
Juan Ramn Quintana  o responsvel por  negociar cocana com os brasileiros. Ele tem pistas clandestinas na Bolvia, perto da fronteira, que so vigiadas por gente armada, civis e militares, incluindo venezuelanos. Quando Quintana esteve a cargo de cuidar da fronteira, ele organizou o narcotrfico e costurou negcios ilcitos e de venda de madeira e de gado com o Brasil. Seu brao-direito  Jssica Jordan. Quintana ainda montou um grupo dedicado  cocana chamado Cartel das Estrelas, com oficiais das Foras Armadas e da polcia. Eles tm ligaes com Venezuela, Brasil, com as Farc da Colmbia e com os mexicanos. So um apndice do Cartel dos Sis, formado pelos venezuelanos. 
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6# GERAL 29.4.15

     6#1 GENTE
     6#2 MERCADO  NEM ADIANTA FAZER A FILA
     6#3 ESTTICA  A MATEMTICA DA BELEZA
     6#4 TECNOLOGIA  MUITO ALM DA DIVERSO

6#1 GENTE
JULIANA LINHARES. Com Daniella De Caprio e Thas Botelho

OS RENOMADOS
Ser sobrenaturalmente belo e ter algum talento, disciplina jesutica e ego faminto de aplausos formam o material bsico das estrelas. Tambm  quase obrigatrio ter um beb com um nome to inexistente na natureza que no deixe dvida sobre a profisso de seus pais. A atriz BLAKE LIVELY explicou na semana passada o nome original da sua bebezinha de 4 meses, James. " um nome de famlia. Gosto que seja de menino, tambm", disse Blake, que, como o marido, RYAN REYNOLDS, tem nome igualmente unissex. Outros nomes recentes de bebs de famosos: a cantora Alicia Keys balizou seu caula de Genesis Ali, e a atriz Liv Tyler, o seu, de Sailor. A filhinha de Eva Mendes e Ryan Gosling  Esmeralda Amada, o primeiro por causa da cigana de O Corcunda de Notre-Dame, o segundo por causa da av cubana dela. 

SURRUPIADOS NO NINHO
At onde pode chegar a raiva de um homem (de aparncia normal) que perdeu a namorada (estonteante) para um ator (igualmente lindo)? O milionrio americano NICK LOEB atingiu um novo parmetro vingativo. Anunciou que vai processar SOFA VERGARA, de quem foi noivo at o ano passado, alegando que a colombiana que virou a atriz mais bem paga da televiso americana quer destruir os embries que eles produziram juntos e deixaram congelados, para uma eventual implantao. "Sempre quis ser pai. Fiz esses dois embries, do sexo feminino, com o propsito de v-los vingar", diz Loeb. "Sofia no precisa ter relao parental ou financeira com elas, a no ser que queira." A atriz, que nega a desvinculao com os embries, h poucos dias anunciou que vai se casar com JOE MANGANIELLO. "Sou de famlia siciliana. Tenho sangue quente", diz Manganiello, com seus 104 quilos de puro msculo. Congela o ex, cara. 

TENHA SANTA PACINCIA, BATMAN
Pareceria elogivel, se no fosse duplamente mentiroso. Exposto no caso das mensagens invadidas da Sony, o ator BEN AFFLECK desculpou-se publicamente por ter pedido que, num conhecido programa de televiso sobre o passado familiar de famosos, fosse eliminada qualquer referncia a um trisav dono de escravos. O apresentador, Henry Louis Gates Jr., "nem tinha includo isso na primeira montagem", alegou o prximo Batman do cinema. Mentira; a verso original do programa tambm veio  tona e mostra os dois conversando sobre o caso. Affleck  ardoroso militante da ala mais  esquerda do Partido Democrata e Gates  o professor de Harvard que certa vez tentou arrombar a porta emperrada da prpria casa, foi preso devido ao chamado de um vizinho que viu a cena ao longe e se transformou em vtima do racismo. Sobre o caso Affleck, no deu um pio.

SEGUREM OS NERVOS, L VEM O NOIVO
A unio entre a beleza, a inteligncia e o imprio da lei s podia dar coisa boa. Mas uma dose extra de emoo tambm ajudou. "Sou ansioso e a Lava-Jato potencializou isso. Ana diz que eu estava trs vezes mais nervoso que ela", brinca AUGUSTO DE ARRUDA BOTELHO, advogado da Odebrecht no captulo em que a construtora  investigada por suspeita de pagar 23 milhes de dlares de propina a corruptos da Petrobras. A noiva  a modelo e estudante de medicina ANA CLAUDIA MICHELS, que encheu a festa de amigas deslumbrantes e ganhou o vestido de Riccardo Tisci, da da Givenchy: "Ele s me deixou v-lo na prova, em Paris". 

FABULOSAMENTE FABI; EM DOBRO
Quem disse que aos 30 anos as modelos esto em idade de aposentadoria no conhece a vontade de ferro da capita da seleo de vlei FABIANA CLAUDINO. O resto certamente no passou despercebido: 1,94 metro de altura, manequim 38 e ossatura facial de rainha egpcia. Como uma adolescente sonhadora, ela fez cursos de passarela, um book e contato com agncias de modelo. J ganhou o primeiro trabalho. "Em um ms e meio comeam os treinos para a Olimpada. Minha sorte  que no pego muito msculo nem tenho o quadril da Beyonc", brinca Fabi. Depois dos Jogos Olmpicos,  a jogadora da seleo que vai se aposentar: "Odeio usar meio. Agora, sou modelo. Tenho de andar de salto". 


6#2 MERCADO  NEM ADIANTA FAZER A FILA
O Watch, da Apple, s  vendido on-line e em lojas finas.  uma estratgia da empresa para entrar no setor de luxo.
RAQUEL BEER

     O design no se restringe  aparncia. Design  como algo funciona", definia Steve Jobs (1955-2011), o irascvel e genial fundador da Apple. Esse mote, muito mais que uma frase qualquer, guiou a empresa mais valiosa do mundo desde seu surgimento, nos anos 70. A esttica limpa e extremamente funcional de seus produtos, aliada  beleza e padronizao inimitvel, fez da ma mordida um cone cultural de nosso tempo. Nos lanamentos, sempre foi tradio apresentar apenas um tipo de desenho, de iPhone, de iPad ou de Mac  ao longo do tempo, todos s ganharam mnimas variaes estticas, ainda que incorporadas a avanos tecnolgicos. Os produtos se ligam pela coeso estilstica. A Apple, porm, decidiu no respeitar esse bastio na produo de sua nova mgica, a primeira idealizada do zero depois da morte de Jobs. O smartwatch (termo que designa os relgios digitalizados, com funes semelhantes s de smartphones) Apple Watch chegou aos pulsos na sexta-feira passada com 38 verses (veja as opes na pg. 86), to diversas que o preo varia de 349 dlares a 17.000 dlares. A mudana de caminho  uma resposta ao fato de o relgio no ser somente um gadget. Pretende ser item de luxo da indstria da moda. O Watch levou a Apple a alterar no s conceitos de design, como toda sua estratgia costumeira de comercializao. 
     No dia do lanamento dos produtos da Apple, os fs da marca usualmente se aglomeram em frente s lojas da empresa. Os que chegam ao caixa saem beijando, vitoriosos, as embalagens. Desta vez, porm, as filas mudaram de endereo. As Apple Stores no venderam o Watch. As compras foram feitas on-line, com entrega em domiclio, e em quiosques de luxo de galerias como a parisiense Lafayette. Para cuidar da mudana, a Apple contratou h dois anos Angela Ahrendts, CEO da fabricante de roupas e acessrios Burberry. Na semana retrasada, Ahrendts espalhou um comunicado para funcionrios da Apple no qual informou que os dispositivos estariam disponveis apenas pela plataforma on-line, alm das lojas parceiras. Pediu que vendedores orientassem compradores desavisados. Escreveu Ahrendts: "O Watch cria uma categoria para ns. Vem com diferentes opes porque  um objeto de autoexpresso". 
     Anlises precipitadas concluram que a falta do produto nas lojas seria consequncia de despreparo. A verdade  que a ttica foi pensada desde o comeo. No seria econmico  mas, sim, uma falha logstica  fabricar uma enorme quantidade dos modelos para atender s tradicionais filas quilomtricas que se formam quando chegam as peas da Apple. Em vez disso, permitiu-se que o consumidor escolhesse a opo de sua preferncia no site  ou comprasse poucas verses nas butiques de luxo. O plano deu certo. Foi 1 milho de pedidos s no ltimo dia 10, quando se abriu a pr-venda. Desde ento, outros 2 milhes de unidades foram encomendados.  possvel imaginar o nmero excessivo de relgios que precisariam ser produzidos para atender  demanda, sem o conhecimento prvio de qual cada cliente desejaria. 
     A necessidade de abrir uma exceo  regra foi uma imposio do novo mercado em que a Apple se incluiu, o do luxo. Diferentemente de um iPhone, que pode ser guardado no bolso, o relgio  uma tecnologia vestvel, sempre  mostra. Diz Angela McIntyre, da consultoria Gartner: "Consumidores estaro interessados nas funcionalidades. Mas vo compr-lo mais para associar a prpria imagem ao item". Em outras palavras, tendem a tratar o Watch como se fosse uma bolsa Louis Vuitton. 
     Essas mudanas evidenciam uma repaginao da Apple? No. A quebra da uniformizao atende a um ponto-chave. O real cerne da Apple no  o padro de suas criaes, mas como cada lanamento tem o poder de transformar mercados, dando flego a inovaes desprezadas, e mesmo criando indstrias, como fizeram o iPod e o iPhone, um com a msica digital, o outro com os smartphones. Nenhum dos dois era o pioneiro de sua categoria  mas eles redefiniram mercados inteiros. Para conseguir isso com relgios inteligentes, a Apple teve de fazer concesses. Ser difcil, mas no impossvel, dar certo. Estima-se que a novidade far com que a compra de smartwatches cresa 500% neste ano. Metade das vendas ser de Watchs. 

O PODER DAS COMBINAES
Mais que um gadget, o Watch  um item fashion. Por isso, a Apple mudou sua estratgia tpica ao apostar na criao de uma ampla variedade de modelos (em vez de replicar o design belo, mas padronizado, que implantou em Macs, iPods, iPhones e iPads)
O COMPRADOR PARTE DE TRS MODELOS COMO BASE,...
Sport  Watch  Edition

... ESCOLHE A PULSEIRA
Sport  5 tipos
Watch  10 tipos
Edition  1 ou 3 tipos
(de acordo com a caixa escolhida)

...E AINDA OPTA PELA CAIXA DO RELGIO
Sport  2 opes
Watch  2 opes
Edition  4 opes (todas de ouro, amarelo ou rosa)

TOTAL DE COMBINAES POSSVEIS: 38
349 a 17.000 dlares


6#3 ESTTICA  A MATEMTICA DA BELEZA
Sucesso no Brasil, a cirurgia para ressaltar as mas do rosto comprova o que os gregos afirmaram h milnios  o belo est na simetria.
CAROLINA MELO

     Os rgos so compostos de vrios tecidos, de natureza muito diferente." A afirmao, cunhada no fim do sculo XVIII pelo anatomista francs Marie Franois Xavier Bichat (1771-1802), serviu de epgrafe, aparentemente simples mas espetacularmente objetiva, a um novo caminho na medicina. Pela primeira vez, um mdico compreendia mais detalhadamente a complexidade do organismo humano. Bichat realizou centenas de autpsias para alcanar o centro de sua concluso. Em um ano, chegou a dissecar 600 cadveres. Obcecado, passava as noites no necrotrio para se dedicar ao estudo com os corpos. Bichat macerava os tecidos, assava-os, fervia-os, secava-os e observava como se decompunham. Um de seus achados permitiu a criao, dois sculos depois, de um dos mais curiosos, modernos e procurados procedimentos estticos  a cirurgia de reduo de bochechas para ressaltar as mas do rosto. O procedimento consiste na retirada de um pedao da poro de gordura das bochechas chamada de "bola de Bichat", evidente referncia ao anatomista francs que dormia com os mortos. A tcnica foi batizada com um nome um tanto risvel  bichectomia , mas  tratada com rara seriedade por quem deseja mudar o rosto. 
     V-se o resultado da bichectomia em mulheres lindas, que aparentemente nada teriam a corrigir e que agora desfilam com as mas faciais protuberantes. A lista  nobre: comea com a estrela de reality show Kim Kardashian, passa pelas atrizes Angelina Jolie e Jennifer Lopez e termina com a onipresente Madonna. Diz o cirurgio Joo de Moraes Prado Neto, presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plstica: "O rosto ganha um aspecto mais jovem e magro com a valorizao das mas".  o sonho de absolutamente todas as mulheres do mundo. 
     A bichectomia  sucesso recente no Brasil. Em 2015, foram realizadas trinta cirurgias desse tipo a cada ms. Um nmero trs vezes superior em relao ao mesmo perodo de 2014. O procedimento  simples. Feito com anestesia local, ele tem durao de cerca de trinta minutos. A extrao da gordura  realizada pela parte interna das bochechas, por meio de uma pequena inciso. A recuperao  rpida. "O processo  muito semelhante ao de extrao de um dente do siso", diz Eduardo Kanashiro, cirurgio plstico e chefe do Ambulatrio da Face, do Hospital Santa Marcelina, em So Paulo. Recomenda-se repouso por cerca de dois dias, tempo de durao do inchao no rosto. 
     Localizada entre a ma do rosto e a mandbula, a bola de Bichat tem como funo facilitar os movimentos da mastigao, servindo como amortecedor entre os msculos durante os movimentos da boca. O tecido adiposo tem um papel evolutivo fundamental. Diferentemente da gordura subcutnea, ele permanece praticamente inalterado. No rosto de um beb, portanto, esse tecido  proporcionalmente maior em relao ao de um adulto. H uma razo para isso: reforar as bochechas e impedir que elas entrem em colapso durante a amamentao. A gordura da bola de Bichat s  atingida em casos de desnutrio severa. Mesmo assim, trata-se do ltimo depsito adiposo a ser consumido em uma situao extremada. Quando a perda de peso  decorrente de dietas leves, ele permanece intacto. Por isso, a cirurgia tem sido procurada tanto por quem est em guerra com a balana como por quem est com o peso ideal. Aos 32 anos, a goiana Soraya Felcio submeteu-se  bichectomia, em 2013. "Passei minha vida sofrendo na escola por causa do meu rosto. Emagrecia e continuava bochechuda", lamenta Soraya. 
     No  exagero dizer que os cirurgies fazem clculos de trigonometria para extrair a bola de Bichat e chegar ao novo contorno facial. Desde a Grcia antiga, um poderoso conceito fez nascer obras-primas da pintura, da arquitetura e da msica  o de simetria. Plato, o primeiro filsofo a tratar do assunto, dizia que "o belo  tudo aquilo em que as partes se agrupam de um modo coerente para compor a harmonia do conjunto". Para os gregos, a ideia de equilbrio era matemtica. Eles caminhavam pelas leis da chamada razo urea  quando a perfeio esttica est na relao geomtrica.  como se os nmeros fossem um atestado de que o mundo tem uma ordem. Enquanto os antigos utilizavam rguas para definir propores estticas, hoje se usam bisturis. 
      incontestvel a ideia da beleza como resultado da harmonia. Mas os critrios em torno desse postulado mudam com os humores do tempo. Havia uma razo muito clara para que as mulheres rechonchudas dos quadros de Sandro Botticelli (1445-1510) fossem consideradas belas e atraentes. As formas avantajadas eram um privilgio de pessoas que no exerciam trabalhos braais, raridade naquele tempo. Hoje, com populaes cada vez mais gordas, tem-se o culto  magreza. Nesse cenrio, os rostos magros da bichectomia se encaixam  perfeio. A definio mais moderna (e brilhante) de beleza, no entanto, est nas palavras do escritor e filsofo italiano Umberto Eco, em seu livro Histria da Beleza: "Aquilo que  belo  igual quilo que  bom e, de fato, em diversas pocas histricas criou-se um lao estreito entre o Belo e o Bom. Mas, se julgarmos com base em nossa experincia cotidiana, tendemos a definir como bom aquilo que no somente nos agrada, mas que tambm gostaramos de ter". Como um rosto de aparncia mais delgada, por exemplo. 
     Como ocorre com qualquer cirurgia, a bichectomia tem riscos, mas calculados. A bola de Bichat fica prximo do ducto parotdeo, estrutura responsvel por transportar a saliva produzida por uma glndula at a cavidade da boca. O ducto  delicadssimo, com dimetro de 3 milmetros e comprimento que varia de 15 a 40 milmetros. Seu rompimento comprometeria o transporte de saliva. H ainda nervos na regio, responsveis por dar mobilidade aos msculos dos lbios. Uma leso nessas estruturas poderia resultar no mau funcionamento e at na paralisia facial. Nada que afugente a vontade de redesenhar um rosto j bonito. 

A GORDURA PINADA
Como  a tcnica de reduo de bochechas 
1- Depois da aplicao de anestesia local,  feito um corte de aproximadamente 1 a 2 centmetros na parte interna da boca, na altura do segundo molar superior 
2- Com uma pina, puxa-se a bola de Bichat - a gordura que fica entre a ma do rosto e a mandbula. Ela serve para facilitar a movimentao dos msculos da mastigao 
3- Com um bisturi eltrico, corta-se cerca de 70% de gordura da bola de Bichat, Em mdia, o pedao retirado mede 5 centmetros de comprimento por 3 centmetros de largura 
4- Aps a retirada, sutura-se o corte com dois a trs pontos. O procedimento leva cerca de trinta minutos, a partir da sedao 
5- O resultado  um rosto afinado, com reduo de 70% na espessura da bochecha no local da inciso, o que ressalta as mas do rosto 
Fonte: Eduardo Kanashiro, cirurgio plstico e chefe do Ambulatrio da Face, do Hospital Santa Marcelina.


6#4 TECNOLOGIA  MUITO ALM DA DIVERSO
A realidade virtual, que progrediu de mos dadas com a indstria de videogames, deixa de ser apenas uma brincadeira de crianas e adultos e comea a ser utilizada para fins bem mais nobres.
RAQUEL BEER

     A tecnologia de realidade virtual, que procura simular o mundo por meio de computadores, passou por trs fases. Na primeira, houve a euforia dos anos 60, quando o cineasta americano Morton Heilig apresentou uma cabine individual capaz de projetar imagens em 3D, dotada de um proliferador de cheiros e de uma poltrona que vibrava. O que ele chamou de "o cinema do futuro" foi considerado a primeira experincia de realidade virtual. Cientistas se empolgaram. Em 1965, o americano Ivan Sutherland, pioneiro nos estudos da internet, imaginou o "visor mximo", um gadget com a capacidade de transformar o mundo ao redor para adequ-lo ao nosso gosto. A tecnologia, porm, emperrou e entrou em seu segundo estgio, o de descontentamento. As pesquisas no tiveram avanos significativos at o fim dos anos 70, quando a Atari as aplicou no desenvolvimento de videogames. Comeou a terceira fase, que perdurou at a dcada passada: a do entretenimento. Passou-se a associar a realidade virtual apenas ao divertimento. Essa viso persistiu at 2012, quando o empreendedor Palmer Luckey lanou o Oculus Rift. O aparelho se assemelha ao que vislumbrou Heilig nos anos 60:  capaz de recriar, em detalhes impressionantes, a realidade  frente dos olhos. Inicialmente, a inovao parecia que impactaria apenas o mundo dos games. Mas ela comeou a se mostrar muito mais promissora, com usos em treinamentos militares, na medicina e em pesquisas cientficas de toda sorte. A quarta onda, esta que vivemos, marca a primavera da realidade virtual. 
     A tecnologia se desenvolveu rapidamente nos ltimos dez anos graas, sobretudo, ao poder da indstria de games. O competitivo mercado dos jogos virtuais movimenta 100 bilhes de dlares ao ano e investe pesado em inovaes. Em duas dcadas, os jogos eletrnicos passaram das imagens pixeladas, nada realistas, do Doom  o clssico de 1993 no qual os alvos eram seres aliengenas  para a alta resoluo de um Call of Duty, jogo de tiro to verossmil que  usado por soldados e policiais em treinamentos. O Oculus Rift elevou o patamar da inovao, ao projetar diretamente nos olhos imagens em alta resoluo. O mundo virtual  recriado ao redor da pessoa e responde a cada movimento. Se o usurio se vira  direita, o dispositivo demora apenas dois milissegundos (tempo imperceptvel ao crebro) para ajustar a imagem  frente. Na prtica, o Rift mergulha as pessoas em outra realidade (veja o quadro na pg. 96). 
     O potencial comercial imediato  promissor. O mercado de realidade virtual movimentar pelo menos 407 milhes de dlares at 2018, quando 25 milhes de pessoas tero comprado tecnologias similares s dos culos Rift. So esses nmeros que atraram para o ramo um gigante da indstria digital, o Facebook. No ano passado, a empresa de Mark Zuckerberg comprou a Oculus Rift por 2 bilhes de dlares. Zuckerberg planeja vender a inovao para o uso em games e utiliz-la no prprio Facebook, pelo qual usurios da rede social podero, em breve, imergir em vdeos publicados por amigos em sua timeline. Mas a ambio de Zuckerberg no para a. Ele pretende usar a tecnologia para redefinir uma srie de indstrias que vo muito alm da diverso. 
     Depois de vestir o Rift, uma pessoa leva poucos minutos para confundir a realidade virtual com o mundo real. Est a o verdadeiro potencial do dispositivo: utilizar o mundo virtual para colocar indivduos diante de situaes que evitam, nunca enfrentariam ou tero de encarar na vida para valer. Fora do entretenimento, um dos primeiros compradores dos culos foi o Exrcito americano. H dcadas pilotos utilizam equipamentos similares para treinar. O Rift, porm, insere qualquer tipo de soldado em combates virtuais. Desde 2009 a Marinha dos Estados Unidos tentava emplacar o programa Ambiente Imersivo de Treinamento do Futuro  Trata-se de um campo virtual que coloca batalhes em situaes de combate. Nos ltimos anos, o projeto ganhou gs (e 40 milhes de dlares em investimentos) com a adoo do Rift. Os militares so equipados com os culos para testar suas habilidades.  frente dos olhos, elementos reais (a exemplo da estrutura de um prdio) se misturam a virtuais para intensificar a sensao de realidade. Antes de ir a campo, uma equipe pode treinar em um ambiente que imita o que ter de enfrentar. Dessa forma, os marines analisam erros cometidos durante a imerso para evit-los na vida real, quando os riscos so mortais.  
     Os militares americanos so pioneiros no uso da tecnologia para fins, digamos, mais nobres. Alm dos treinamentos, o psiclogo Albert Rizzo, diretor do Instituto para Tecnologias Criativas da Universidade do Sul da Califrnia, tem usado a inovao para tratar de traumas de guerra. Disse Rizzo a VEJA: "Os veteranos evitam pensar na situao traumatizante, como a morte de um amigo, porque isso lhes proporciona alvio. Mas o trauma no vai embora sozinho. A superao s ocorre quando eles encaram o problema". Rizzo faz com que os pacientes desafiem o medo. Se o trauma surgiu pelo fato de ter visto um colega perder a perna na exploso de uma granada, o psiclogo recria a cena virtualmente e ensina o soldado a conviver com a situao. "Ao longo das sesses o nvel de nervosismo fica cada vez menor, j que o paciente depara com a fobia repetidamente, aprende a process-la e, assim, perde a sensibilidade excessiva diante de barulhos, imagens, tudo o que faz com que se lembre daquilo", conclui. 
     "Ns dizamos: ' preciso ver para acreditar'. Agora, entendemos que temos de experimentar para acreditar", definiu o japons Shuhei Yoshida, presidente da Sony, que lanou um modelo de culos que compete com o Rift. E com a realidade virtual  possvel experimentar qualquer coisa, de uma viagem a Marte a uma volta ao passado (veja exemplos ao longo desta reportagem). A paulistana Carla Anauate, por exemplo, participa de sesses de realidade virtual com seu psiclogo, Cristiano Nabuco. Carla tem medo de voar de avio h quase trinta anos. Uma fobia encarada rotineiramente, pois precisa fazer cerca de quinze viagens areas ao ano a trabalho. Nas sesses, Nabuco recria os barulhos caractersticos, os tremores da decolagem e do pouso, turbulncias, todo o ambiente de um avio em pleno ar. Em paralelo, faz perguntas e instrui a paciente, que pode parar a simulao quando quiser. "Consegui realizar voos completos, sem medo, no computador", afirma Carla. "Tenho viagens longas programadas para a Rssia e para o Mxico, e a experincia digital faz com que eu me sinta muito mais calma para embarcar", completa. 
     So variadssimos os exemplos de uso dessa inovao, que promete ter funes to diversas quanto as que ganharam os computadores e a internet nas ltimas dcadas. A Universidade da Califrnia em Davis aplica a tecnologia para levar, virtualmente, alunos de geografia para cenrios de estudo, como ambientes devastados por terremotos. As fabricantes General Motors e Ford a utilizam para testar a segurana de novos carros. A multinacional de energia e gs National Grid treina funcionrios para o uso de equipamentos perigosos de extrao de petrleo. Em um futuro no muito distante, qualquer um poder ter culos de realidade virtual em casa e us-los para comparecer virtualmente a eventos, como o casamento de um amigo em outro pas. Na escola, alunos conseguiro presenciar fatos histricos recriados digitalmente. Teoricamente, no h limite para as iluses que se consegue criar. O virtual, enfim, poder ser uma rota segura para nos preparar para a realidade. 

O ENSAIO PARA A GUERRA
* A prtica virtual: desde 2009, combatentes da Marinha americana praticam misses em cenrios que mesclam elementos virtuais com reais. O mundo digitalizado pode ser usado para treinos terrestres, areos ou mesmo para ensinar um marine a conduzir navios 
* O efeito no mundo real: a imerso ajuda a tornar mais instintivas aes que os soldados devem tomar em meio ao caos de uma guerra e os prepara para encarar batalhas em novos ambientes. Se uma equipe precisa invadir uma casa para capturar um terrorista, na simulao j se acostumar  estrutura do edifcio e saber qual deve ser o provvel posicionamento de inimigos

PARA COMBATER O MEDO 
* A prtica virtual: o paciente  exposto  sua fobia, como o medo de voar. Ao processar o trauma com a ajuda de psiclogos, aprende a lidar com a situao antes de ter de encar-la para valer 
* O efeito no mundo real: a exposio repetida  fobia, sempre com acompanhamento mdico, faz com que a pessoa reaprenda a reagir diante daquele cenrio crtico quando de fato ele ocorrer

AO VOLANTE
* A prtica virtual: em um software de treinamento de motoristas da Toyota, os participantes precisam dirigir com segurana, resistindo a distraes como responder a mensagens de texto e interagir com passageiros virtuais. Se perdem o foco, acidentes acontecem 
* O efeito no mundo real: a ideia  mostrar as consequncias srias de comportamentos incautos ao volante. Das 10.000 pessoas que j participaram do teste, 80% afirmaram que mudariam seus hbitos no trnsito para diminuir riscos apresentados nas simulaes

A ILUSO
Como os culos Rift simulam a realidade ao redor do usurio
1- Algoritmos lem dados coletados por sensores infravermelhos e calculam a inclinao do rosto e a distncia e altura das pupilas em relao s lentes para projetar imagens com efeito de trs dimenses 
2- Um magnetmetro, um giroscpio e um acelermetro levam apenas dois milissegundos para ajustar as imagens aos movimentos dos olhos e do corpo do usurio, o que elimina efeitos de arrasto ou atraso 
3- As informaes coletadas so processadas por um software que projeta duas imagens quase idnticas, no fosse pela leve diferena na angulao, o que simula a forma como enxergamos com cada olho 
4- A imagem  projetada em um campo de viso de 110 graus (prximo ao limite do olho humano) e tem altssima resoluo 
5- Em um computador, a realidade virtual aparece recortada em duas telas, mas quando voltada diretamente para os olhos do usurio, compe uma recriao perfeita em 360 graus e 3D 
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7# ARTES E ESPETCULOS 29.4.15

     7#1 CINEMA  OS DONOS DO MUNDO
     7#2 CINEMA  SEM ANESTESIA
     7#3 LIVROS  A DESORDEM GLOBAL
     7#4 TELEVISO  O PROFETA DO RMEL
     7#5 VEJA RECOMENDA
     7#6 OS LIVROS MAIS VENDIDOS
     7#7 ROBERTO POMPEU DE TOLEDO  A DESORAS, DESFELIZ

7#1 CINEMA  OS DONOS DO MUNDO
Como a Marvel se tornou um imprio sem paralelo na histria da indstria do entretenimento.
ISABELA BOSCOV

     No fim de semana do 1 de Maio, quando a bilheteria da estreia americana de Vingadores: Era de Ultron (Avengers: Age of Ultron, Estados Unidos, 2015) for computada, o longo inverno que a Marvel atravessou um dia vai recuar ainda mais na memria. Espera-se que este segundo episdio de Vingadores  que est em cartaz no Brasil desde quinta-feira  supere as marcas estratosfricas do primeiro: 207 milhes de dlares no fim de semana inaugural nos Estados Unidos, 1,5 bilho de bilheteria mundial  a terceira maior da histria, atrs apenas dos colossos Avatar e Titanic. Joss Whedon, o exausto diretor dos dois Vingadores, vai passar o basto do terceiro e do quarto episdios para os irmos Anthony e Joe Russo, de Capito Amrica  O Soldado Invernal. Ter deixado uma contribuio mpar para a consolidao de um imprio como nunca se viu antes:  sua tambm a concepo de Agentes da S.H.I.E.L.D., a srie que inaugurou as agora mltiplas investidas da Marvel no formato. Provavelmente continuar a ser consultado a toda hora, sobre muitas coisas, por Kevin Feige, o presidente da Marvel Studios e figura central dos cada vez mais vastos domnios da marca. Com uma fieira de lanamentos programados para os prximos meses e anos (Homem-Formiga em julho, Capito Amrica 3 e Doutor Estranho em 2016, Guardies da Galxia 2 em 2017, e por a vai), pouca gente h de se lembrar do tempo em que o futuro da Marvel parecia cinzento. 
     Maior editora de quadrinhos do mundo nos anos 60 graas ao gnio do criador Stan Lee, no fim daquela mesma dcada a Marvel iniciou uma trajetria de altos e baixos que conduziria, no meio dos anos 90, a um processo de concordata. Salva da falncia na ltima hora por Isaac Perlmutter, um investidor  moda antiga  arguto, econmico, reservado  que a adquiriu e a fundiu a uma companhia que fabricava os brinquedos baseados em seus heris, a Marvel ganhou algum abrigo das intempries. E logo vieram tambm os sinais de degelo: Perlmutter tanto insistiu que fez com que dois grandes estdios soprassem a poeira dos direitos (adquiridos muito antes, por uma ninharia) sobre os mais valiosos heris gerados na Marvel: os mutantes X-Men, da Fox, e o Homem- Aranha, da Sony. Sua ideia era que os filmes ajudassem a vender brinquedos e a valorizar as aes de sua companhia. O plano saiu melhor que a encomenda. O X-Men do diretor Bryan Singer, de 2000, e o Homem-Aranha de Sam Raimi, de 2002, inauguraram uma nova era dos super-heris no cinema e fizeram o cacife desses personagens disparar. A esse sucesso, a Marvel assistiu  como espectadora. De outros xitos e fracassos, ela participou sem direito  palavra final: Elektra, O Demolidor, O Justiceiro, O Quarteto Fantstico, um Hulk com Eric Bana e outro com Edward Norton  seus heris iam passando  tela grande em verses execradas pelo pblico, ou claudicantes, ou at simpticas, mas sempre perdendo um tanto de seu sentido original na traduo. Entre 2005 e 2006, a Marvel decidiu pagar para ver: reuniu um financiamento de meio bilho de dlares para formar seu prprio estdio e fazer seus filmes, com seus personagens, do seu jeito. 
     Passada uma dcada, a Marvel  hoje um tipo de imprio que no tem precedente na histria da indstria do entretenimento.  um gigante do cinema, da televiso, dos quadrinhos. Atua na Disney, na Sony, na rede ABC, no Netflix  Demolidor, a srie que h algumas semanas inaugurou o que ser um pacoto com o Netflix, aponta diferentes rumos criativos, com violncia realista e uma esttica mais suja e urbana. A Marvel no descansa: tem uma escala oficial de lanamentos que alcana 2019, e uma escala extraoficial at 2028. O suigeneris, porm,  a maneira tentacular como esse imprio se articula: por meio de uma multido crescente de personagens e histrias que conversam entre si e se conectam, ampliando mais e mais o escopo do "Marvelverse", ou "Universo Marvel". 
     A primavera da Marvel e esta sua fase de colheita farta devem quase tudo a dois nomes. Um deles dispensa apresentaes: trata-se da Disney, que adquiriu a Marvel, em 2010, por 4 bilhes de dlares. Fato inesperado: a compra fez cair as aes da Disney. Sem os X-Men e o Homem-Aranha, avaliou o mercado, a Marvel no passava de um repositrio de personagens de segundo escalo. Sabe-se quem  que est dando risada agora. O outro nome  pouco conhecido fora da indstria ou do crculo dos fs devotos: trata-se de Kevin Feige, que tem 41 anos e o histrico que se esperaria de algum envolvido com esse mundo  cresceu adorando Star Wars, Star Trek, Super-Homem, Robocop. Feige, porm, tem um conhecimento de sua matria-prima, uma originalidade de raciocnio, uma fora de vontade e uma capacidade de imp-la que o vm tornando quase to lendrio quanto os super-heris que ele maneja. "Kevin  a Marvel", disse a VEJA Joss Whedon.  mesmo, em vrios sentidos. Um dos primeiros trabalhos de Feige foi junto ao diretor Bryan Singer e  produtora Lauren Shuler Donner em X-Men. Feige j era conhecedor do universo da Marvel; tratou de virar especialista. Avi Arad, bambamb da Marvel Entertainment e futuro CEO da Marvel Studios, chamou-o para ser seu segundo. Quando Arad saiu, Feige assumiu o posto e comeou a instaurar o que agora, mais e mais, parece um mirabolante plano de dominao mundial. 
     O primeiro filme lanado pela Marvel Studios depois daquele atrevido levantamento de capital foi Homem de Ferro, produzido em associao com a Paramount. Em retrospecto, percebe-se que est tudo l: o tratamento do material original como evangelho cannico ( preciso agradar a todo mundo, mas, se os aficionados acharem que o personagem foi desvirtuado, o jogo acaba); muito barulho, muita luta, muitos efeitos, mas foco bem fechado na personalidade do heri e seus dramas; e pelo menos um lance de uma audcia danada  no caso, a escalao para o papel-ttulo de Robert Downey Jr., que amargava ainda o rescaldo de seus problemas com as drogas e a lei. "O personagem  rei. O nome dele  que tem de estar em destaque na marquise do cinema. Essa  uma maneira liberadora de escolher elenco, porque no  preciso pesar a popularidade do ator; basta ele ser o cara certo, e pronto", explicou Feige a VEJA. Lanado em 2008, Homem de Ferro fez 585 milhes de dlares. Homem de Ferro 2 fez 624 milhes, e Homem de Ferro 3 bateu em 1,2 bilho. Esse  o tipo de progresso que a Marvel gosta de ver, pelo que ela representa de palpvel (o dinheiro) e de intangvel (a adeso da plateia ao seu universo em constante expanso). Nada exemplifica melhor o instinto de Feige do que Guardies da Galxia, um quadrinho de "nicho" em que figuram um guaxinim falante e um homem-rvore  e que arrasou na bilheteria. Prximo desafio: atingir o mesmo resultado com o no muito atraente Homem-Formiga. 
     Mas por que, se a Marvel j tinha o sucesso de Homem de Ferro no bolso, sua compra fez cair as aes da Disney? Porque quela altura ainda no se havia entendido a estratgia a longussimo prazo de Feige. O que ele estava propondo era uma inverso da lgica do cinema em favor da lgica dos quadrinhos: em vez de comear com um filme coletivo e dele tirar filmes dedicados a cada personagem em particular, a Marvel estava apresentando os personagens individualmente, como nas revistinhas, e criando empatia e familiaridade com eles antes de reuni-los. Thor e Capito Amrica foram muito bem  e, quando o primeiro longa feito inteiramente na parceria chegou aos cinemas com a artilharia promocional da Disney na sua retaguarda, o estrondo que a Marvel acabara de se tornar revelou-se para a indstria. At segunda ordem, o mundo, hoje,  da Marvel. Ns s moramos nele. 
LEIA A NTEGRA DAS ENTREVISTAS COM JOSS WHEDON E KEVIN FEIGE EM VEJA.COM


7#2 CINEMA  SEM ANESTESIA
Em Cake, Jennifer Aniston prova  de novo  que fica muito bem no papel de mulheres duras e infelizes.

Foi uma onda de solidariedade: quando saram as indicaes ao Oscar e Jennifer Aniston no constava delas, as redes sociais e os talk shows pegaram fogo. Em Cake  Uma Razo para Viver (Cake, Estados Unidos, 2014), que estreia nesta quinta-feira no pas, ela  Claire, uma mulher que enfrenta dores terrveis decorrentes de um acidente no qual sofreu uma perda irreparvel  e comprova aquilo que j demonstrara outras vezes: que pode ser uma tima atriz dramtica. Resignada com sua imagem solar, mas determinada a continuar se provando, Jennifer falou  editora executiva Isabela Boscov sobre a experincia. 

Projetos pequenos como Cake no circulam entre estrelas do seu calibre. Como ele chegou at voc? 
Peo ao meu agente que me mande todos os roteiros em que ele consiga pr as mos, porque nunca se sabe de onde vo surgir os trabalhos mais interessantes. Pois Cake me deixou doida. Li o script de cabo a rabo em uma hora e meia, o que para mim  um recorde - sou muito lerda. Mas o papel estava com outra atriz. Pedi para pelo menos ficar na fila: se algo acontecesse, que me pusessem no mesmo lugar que o diretor por meia hora para eu conversar com ele. 

Como foi sua conversa com o diretor Daniel Barnz? 
Eu sabia que no era uma opo natural para Claire e que teria de expressar minha paixo, promessa e compromisso. Para minha surpresa, ele se entusiasmou. Ento demos as mos e pulamos juntos do alto desse prdio. 

Voc diz que no seria uma opo natural. No entanto, esta no  a primeira vez que voc  elogiada por um personagem duro ou infeliz. Tudo isso j aconteceu antes com Por um Sentido na Vida e Amigas com Dinheiro. 
Para alguns diretores, sempre vou ter de me provar de novo. A maior parte das decises  tomada com base na percepo pblica que se tem de um ator. Mesmo meus agentes s vezes vm dizer que no adianta eu tentar fazer tal papel porque sou conhecida demais e no vou desaparecer no personagem. Por isso eu queria tanto Cake: por mim. De tanto ouvir a mesma coisa, voc comea a acreditar nela. Mas, para dizer a verdade, isso no me chateia. At gosto. Duvidar de si mesma ajuda uma pessoa a se manter honesta e esperta. Eu pelo menos no pretendo tocar o mesmo banjo at o fim da vida. 

Claire est num momento horrvel. 
Sinto tanto pela Claire que s vezes chorava de pensar no que ela est passando, mas essa foi uma das partes mais instigantes - empurrar as emoes para escanteio, porque Claire no gosta que percebam o que ela sente. 

Pode-se deduzir que Claire  to apegada  dor dos ferimentos do acidente porque essa dor  mais tolervel que a da perda que ela est enfrentando.  assim que voc a v? 
Como Claire  muito complicada, sua dor fsica serve a dois propsitos contraditrios, na minha opinio: bloquear a dor emocional e ao mesmo tempo no deix-la esquecer nem por um minuto a sua perda. A culpa de esquecer ou seguir em frente a mataria. 

Expressar dores fsicas di? 
Se uma pessoa tem problemas na perna, na coluna, no pescoo, no existe gesto que no cause dor. Eu chegava ao fim do dia torta. Mas no provei nenhum dos analgsicos brabos da Claire. 

H duas dcadas voc  perseguida por tabloides e paparazzi.  difcil expor-se da forma como voc faz em Cake? 
 libertador interpretar uma mulher que no d mais a mnima para o cabelo, a pele, o peso, as roupas; qualquer coisa que significasse esforo, cuidado ou vaidade seria contrria a ela. Por outro lado,  um perrengue filmar na rua e ser fotografada como uma criatura extica porque voc engordou ou est sem maquiagem. 


7#3 LIVROS  A DESORDEM GLOBAL
O estadista Henry Kissinger, que j esteve  frente da poltica externa dos Estados Unidos, diz que a viso americana de mundo perdeu seu lugar.
DUDA TEIXEIRA

     No quero colocar a carroa  frente dos cavalos. Ns no temos uma estratgia ainda", disse o presidente americano Barack Obama a reprteres em agosto do ano passado. A pergunta foi sobre qual o plano para conter o avano dos terroristas do Estado Islmico (Isis) no Iraque e na Sria. A resposta, mais do que evidenciar o despreparo de uma potncia para lidar com um grupo armado e virulento, escancarou o atordoamento da poltica externa americana quando confrontada com vises de mundo totalmente dspares. Para os doze presidentes que moraram na Casa Branca aps a II Guerra Mundial, os Estados Unidos deveriam disseminar seus ideais de liberdade e de democracia. Quando os povos aderissem a esses princpios por livre e espontnea  vontade, haveria a paz definitiva entre as naes e o auxlio americano no seria mais necessrio. Para os extremistas islmicos, contudo, os pases devem aderir  ummah, a comunidade muulmana, que vencer uma guerra contra "Roma", e ento ter incio o apocalipse. No h conciliao possvel. 
     A variedade de concepes sobre como o mundo deve evoluir e a perda de legitimidade das ideias americanas so o tema do ltimo livro de Henry Kissinger, Ordem Mundial (traduo de Cludio Figueiredo; Objetiva; 432 pginas; 54,90 reais). Para o diplomata, que foi assessor de segurana nacional e secretrio de Estado nos mandatos de Richard Nixon (de 1969 a 1974) e Gerald Ford (de 1974 a 1977), a viso americana foi a dominante do fim da II Guerra at a virada do milnio. Essa construo ideolgica seria baseada em dois pilares. O primeiro  a conferncia na regio alem de Vestflia aps a Guerra dos Trinta Anos, de 1618 a 1648. O acordo estabeleceu que os Estados deveriam ser reconhecidos pelos demais como autoridades e seriam soberanos em seus territrios. O segundo pilar  a noo de "segurana coletiva", cuja semente foi plantada por Woodrow Wilson, presidente americano de 1913 a 1921, e que depois formaria o arcabouo para a fundao da Liga das Naes e de sua sucessora, a ONU. A meta era criar uma comunidade internacional regida por um princpio moral: a oposio universal  agresso militar. Qualquer um que iniciasse um ato blico seria identificado como agressor e levado a um tribunal de arbitragem. Kissinger constata que isso no funciona: "A ideia de que nessas situaes os pases vo identificar violaes da paz de forma idntica e estar preparados para agir de comum acordo para combat-las  desmentida pela experincia da histria". A ausncia de reao ao avano de soldados russos na Ucrnia  s o exemplo mais recente dessa obviedade. Para Kissinger, o desafio atual no  apenas a existncia de novos centros de poder, mas sim o fato de vrias ordens mundiais competirem entre si  e aquela inspirada em Woodrow Wilson perdeu fora. 
     Para os chineses, at o incio do sculo XX, o nico soberano era o imperador, que dominava tudo o que existe sob o cu. Os demais povos eram seus tributrios e podiam ser mais avanados quanto mais culturalmente se parecessem com a China. Esse pensamento imperial permanece em certas concepes expansionistas da China atual. Para os confrontos ideolgicos do futuro, no existe uma estratgia ainda. 


7#4 TELEVISO  O PROFETA DO RMEL
A novela bblica Os Dez Mandamentos excita os bispos da Record e incomoda a Globo ao mesclar o kitsch de praxe a um ingrediente folhetinesco: a encheo de linguia.
MARCELO MARTHE

     Quando chegou o ltimo Carnaval, em fevereiro, uma ideia ocorreu naturalmente aos atores de Os Dez Mandamentos, novela bblica da Record. "A gente j comeava as gravaes no clima: quem vai querer desfilar na escola de samba do Rio Nilo?", diz o veterano Zcarlos Machado. O ator, por sinal, daria um excelente destaque na avenida. Sua caracterizao como o fara Seti I faria inveja ao finado Clvis Bornay: o governante da 19 dinastia conduz o Egito com uma careca lustrosa, rmel nos olhos, braos cobertos de bijuterias e um saiote que deixa entrever as pernas depiladas em meio a mantos esvoaantes. "Os egpcios tinham um senso de higiene sofisticado", explica o ator. Desde que estreou, no fim de maro, Os Dez Mandamentos tem provocado excitao nos bispos da Igreja Universal do Reino de Deus, que dirigem a emissora. Alcanando mdias de ibope de at 14 pontos em So Paulo, o programa resgatou a teledramaturgia da Record de seu ocaso melanclico. O diabo  que a coisa no se esgota no xito em si: ao lado das novelinhas infantis do SBT, a saga do profeta Moiss (Guilherme Winter) contribui para a m conjuno astral do horrio nobre da Globo, bem no instante em que a lder de audincia enfrenta turbulncias no folhetim Babilnia  e comemora seu quinquagsimo aniversrio. Pois preparem-se: a Record cogita s produzir novelas bblicas daqui em diante. No mximo, pretende investir de vez em quando em sries curtas de outros gneros para conter rebelies do contingente de atores que se incomodam em virar eternos passistas de uma colorida "Acadmicos do Rmel". 
     Os Dez Mandamentos confirma a sina das adaptaes do episdio do Antigo Testamento para a TV e o cinema: quem conta o conto bblico no resiste a aumentar um ponto. No xodo e em outros livros que narram a trajetria de Moiss, h muitas lacunas sobre a vida do profeta que  adotado pela filha de um fara, vira libertador de seu povo e  recebe as tbuas dos mandamentos. Vagas indicaes sustentam a hiptese de que o fara desafiado por ele foi Ramss II. Ainda assim, no clssico Os Dez Mandamentos, de 1956, o cineasta Cecil B. DeMille toma isso como certo para extrair um baita melodrama das Escrituras: criados como irmos, Moiss e Ramss travam uma disputa romntica e concorrem pela predileo do fara. Mais recentemente, a srie americana A Bblia acrescentou pirotecnia  histria, e o filme xodo, de Ridley Scott, fez do Moiss vivido por Christian Bale um guerrilheiro. A produo da Record emula o kitsch do clssico de DeMille e os efeitos visuais das duas ltimas verses. Se traz novidade,  a decorrncia elementar de se assumir como novela: a encheo de linguia. 
     Enquanto o filme dos anos 50 resumia a narrativa bblica em cerca de trs horas, a brasileira Os Dez Mandamentos se estender por 150 captulos. Com custo de 105 milhes de reais, mais de oitenta atores fixos e 500 figurantes, a novela completou seu primeiro ms no ar empacada l pelo meio do segundo captulo (de um conjunto de quarenta) do xodo. Mas no tem sido difcil para a Record operar o milagre da multiplicao de to poucas linhas. Como nas tramas exticas de Glria Perez, o fato de se tratar de um folhetim  a senha para relaxar e soltar a fantasia. H um desfile de nomes esquisitos (Aoliabe, Zelofeade, Meketre). Tiradas surreais ("Minha promoo foi devorada pelo deus crocodilo") misturam-se ao sotaque e  casualidade cariocas ("Ele est na boa"). O abilolado Ramss (Srgio Marone) engrossa o cordo cmico: o futuro fara frequenta at prostbulo. No meio desse carnaval, ainda sobra lugar para a pregao religiosa. Consta que Cristiane Cardoso, filha de Edir Macedo, revisa diligentemente os roteiros. A condenao ao paganismo presente no original vira pretexto para uma conversa  la Fala que Eu Te Escuto. 
     Curiosamente, o ator que encarna o grande vilo pago se identifica com o "barato" da religio egpcia. Com interesses que vo da filosofia oriental  umbanda, Zcarlos Machado estava empolgado na semana passada para gravar as ltimas cenas de Seti I  sua mumificao. "J testei meu sarcfago. Foi uma viagem. Agora, o desafio  mostrar como se faziam as mmias sem cair no grotesco." Oremos.


7#5 VEJA RECOMENDA
DISCO 
HEAD DOWN E GREAT WESTERN WALKYRIE, RIVAL SONS (HELLION RECORDS)
 Surgido em Los Angeles no fim da dcada passada, este quarteto americano tem em sua formao um sacerdote hindu, um cristo fervoroso e um devoto de uma seita indgena. O mexido heterodoxo, no entanto, no interfere na sonoridade do grupo: hard rock dos anos 70 (a inspirao maior  Led Zeppelin). Passadista, sim, mas muito distante dos grupos nostlgicos que copiam a msica de dcadas anteriores com a sensibilidade de uma folha de papel-carbono. Scott Holiday, o tal sacerdote hindu,  um guitarrista de boa cepa que, com parcimnia, sabe equilibrar o pedal de distoro com dedilhados suaves e um solo meldico. Jay Buchanan, o pele-vermelha honorrio,  vocalista de bons pulmes. Lanados no exterior respectivamente em 2012 e 2014, Head Down e Great Western Walkyrie chegam ao Brasil de carona nas apresentaes do Rival Sons em um festival dedicado ao heavy metal. Antes tarde do que nunca: o grupo  uma alternativa vigorosa nesse festival de bandas plidas e sem vio.

BLU-RAY
JIMI  TUDO A MEU FAVOR (JIMI  ALL IS BY MY SIDE, INGLATERRA/IRLANDA/ESTADOS UNIDOS, 2013. PARAMOUNT)
 Primeiro, a notcia ruim: o filme no traz um acorde sequer tocado por Jimi Hendrix. A famlia do guitarrista americano no liberou as canes. Agora, a boa surpresa: a ausncia dessas canes antolgicas no compromete Jimi  Tudo a Meu Favor. No se trata de uma cinebiografia de Hendrix, mas sim do retrato de um perodo especfico de sua vida  o binio 1966-1967, quando ele migrou das espeluncas de Nova York para Londres, que vivia uma ebulio musical. Um dos achados do diretor John Ridley  roteirista premiado com o Oscar por 12 Anos de Escravido  foi a escolha de Andr Benjamin, do duo de rap Outkast, para viver o guitarrista canhoto. A interpretao de Benjamin tem carisma e sensualidade no ponto certo.  sensacional o momento em que ele se vira para Eric Clapton (Danny McColgan), cita uma lista de clssicos do blues e pergunta se o guitarrista ingls conhece algum deles. E a cara de espanto de Clapton quando  devorado vivo no palco pelo americano  realmente impagvel.

LIVROS
TODA LUZ QUE NO PODEMOS VER, DE ANTHONY DOERR (TRADUO DE MARIA CARMELITA DIAS; INTRNSECA; 528 PGINAS; 39,90 REAIS, OU 24,90 REAIS NA VERSO ELETRNICA)
 Werner Pfennig, um recruta alemo com um valioso talento para consertar rdios e triangular sinais radiofnicos, est em Saint-Malo, na Frana ocupada, quando a cidade  bombardeada pelos aliados. A algumas quadras de distncia, encontra-se Marie-Laure LeBlanc, uma garota cega que trabalha como mensageira para a Resistncia Francesa. O ttulo do segundo romance do americano Anthony Doerr refere-se no s  deficincia visual da protagonista: o rdio  um elemento central, e as ondas eletromagnticas que cercam o mundo de mensagens invisveis (nem todas,  verdade, luminosas) so uma metfora fundamental do livro. Doerr, alis, tem propenso a se deixar levar por imagens preciosistas, sobretudo nos primeiros curtos captulos  em que um alvo militar  comparado a um dente podre a ser arrancado. Mas ele a compensa com uma habilidade folhetinesca para alternar as histrias de Werner e Marie-Laure, sobre os quais o leitor quer sempre saber mais.

SETE ANOS BONS, DE ETGAR KERET (TRADUO DE MAIRA PARULA; Rocco; 192 PGINAS; 24,50 REAIS)
 Roteirista de cinema e de histria em quadrinhos, mas aclamado sobretudo como contista  conquistou a admirao de Salman Rushdie e Amos Oz , o israelense Etgar Keret, 47 anos, narra aqui a experincia trivial e desafiadora da paternidade. O olhar afeito aos fatos mais inslitos e a conciso que se tornaram marcas de seus relatos ficcionais manifestam-se tambm nestas pginas de memrias. Os sete anos bons do ttulo fazem referncia aos sonhos que Jos interpreta, narrados no Gnesis, sobre sete anos de fartura seguidos de sete anos de misria. Mas  tambm o perodo que vai do nascimento de Lev, o filho de Keret,  morte do pai do escritor, um sobrevivente do holocausto nazista. O primeiro captulo, sobre a maternidade, j  um vislumbre dos conflitos da vida em Tel-Aviv: ao chegar ao hospital para dar  luz, a mulher de Keret no tem toda a ateno de que precisaria, pois mdicos e enfermeiras esto ocupados com vtimas de um atentado terrorista. E,  medida que Lev cresce, seus pais contemplam se ele deve ou no servir no Exrcito. Soam, talvez, como temas graves  mas Keret os trata com encanto e, sobretudo, humor.

CINEMA
NOITE SEM FIM (RUN ALL NIGHT, ESTADOS UNIDOS, 2015. ESTREIA NO PAS NESTA QUINTA-FEIRA)
 No h mistrio no fato de Liam Neeson ter se tornado, j no fim dos seus 50 anos (ele est com 62), um heri de filmes de ao e pancadaria: ele  muito bom no que faz, crvel como peso-pesado e como homem torturado  uma espcie de Charles Bronson com sensibilidade dramtica. Em seu terceiro trabalho com o diretor catalo Jaume Collet-Serra, depois de Desconhecido e Sem Escalas, a frmula continua afiada. Neeson  Jimmy Conlon, que teve longa carreira como leal capanga do aterrador chefe de uma mfia irlandesa em Nova York (Ed Harris). Jimmy, porm, anda meio aposentado (leia-se, bebendo at cair). Essa relativa paz etlica  quebrada quando seu filho Mike (Joel Kinnaman, de RoboCop), que o detesta, testemunha o que no devia e passa a ser perseguido pelo filho do mafioso. Jimmy prova que at um sujeito que foi pssimo pai a vida toda pode ter seu dia (ou sua noite) de melhor pai do mundo: gngsteres e policiais corruptos vo descobrir o que  bom para a tosse  tudo enquanto a cmera de Collet-Serra descreve voos improvveis, mas muito dinmicos, por Nova York. 


7#6 OS LIVROS MAIS VENDIDOS

FICO
1- O Pequeno Prncipe. Antoine de Saint-Exupry. AGIR
2- Se Eu Ficar. Gayle Forman. Novo Conceito
3- Cidades de Papel. John Green. INTRNSECA
4- Cinquenta Tons Mais Escuros. E.L. James. INTRNSECA
5- Para Onde Ela Foi. Gayle Forman. NOVO CONCEITO 
6- Cinderela Pop. Paula Pimenta. GALERA RECORD 
7- Simplesmente Acontece. Cecelia Ahern. NOVO CONCEITO 
8- Divergente. Veronica Roth. ROCCO 
9- Convergente. Veronica Roth. ROCCO 
10- Insurgente. Veronica Roth. ROCCO 

NO FICO
1- Bela Cozinha: As Receitas. Bela Gil. GLOBO
2- Fala, Galvo. Galvo Bueno e Ingo Ostrovsky. GLOBO
3- Eu Fico Loko. Christian Figueiredo de Caldas. NOVAS PGINAS 
4- Elis Regina  Nada Ser Como Antes. Julio Maria. MASTER BOOKS 
5- Sniper Americano. Chris Kyle. INTRNSECA
6- Meu Universo Particular. Frederico Elboni. BENVIR
7- O Dirio de Anne Frank. Anne Frank. RECORD 
8- Nada a Perder 3. Edir Macedo. PLANETA 
9- Sonho Grande. Cristiane Correa. PRIMEIRA PESSOA 
10- A Teoria do Tudo. Jane Hawking. NICA 

AUTOAJUDA E ESOTERISMO
1- Philia. Padre Marcelo Rossi. PRINCIPIUM
2- Ansiedade. Augusto Cury. SARAIVA 
3- No Se Apega, No. Isabela Freitas. INTRNSECA 
4- Gerao de Valor. Flvio Augusto da Silva.  SEXTANTE
5- O Cdigo da Inteligncia. Augusto Cury. SEXTANTE
6- O Poder do Hbito. Charles Duhigg. OBJETIVA 
7- Quem Me Roubou de Mim? Padre Fbio de Melo, PLANETA
8- O Poder da Escolha. Zbia Gasparetto. VIDA & CONSCINCIA
9- O Livro do Bem. Ariane Freitas e Jessica Grecco. GUTENBERG 
10- O Monge e o Executivo. James Hunter. SEXTANTE 


7#7 ROBERTO POMPEU DE TOLEDO  A DESORAS, DESFELIZ
     Encenou-se no Tribunal de Justia do Rio de Janeiro, no feriado de 21 de abril, em forma de pea teatral, uma celebrao chamada "desenforcamento de Tiradentes". Com advogado, promotor e jri popular, refez-se o julgamento do heri da Inconfidncia Mineira, tudo mais ou menos conforme o que registram os autos de dois sculos atrs, mas com resultado inverso: no final o ru  inocentado. Ou seja, desenforcado. O melhor de tudo foi o ttulo. "Desenforcamento" entra para o rol de mgicas palavras que o des inicial permite criar, invertendo significados e instituindo um mundo s avessas. Em Apesar de Voc, sua msica contra a ditadura, Chico Buarque pediu: "Voc, que inventou a tristeza, ora tenha a fineza de desinventar". Talvez j se invocasse o "desinventar" antes; depois, invocou-se mais ainda. At foi acolhido no dicionrio digital Aulete, que lhe d o significado de "retroceder, retroagir na ao de inventar", e oferece como exemplo um trecho do poeta Manoel de Barros: " preciso desinventar os objetos. O pente, por exemplo.  preciso dar ao pente a funo de no pentear. At que ele fique  disposio de ser uma begnia".  
     Numa de suas malucas aventuras no Pas das Maravilhas, Alice comemora seu unbirthday, como escreveu o autor do livro, o ingls Lewis Carroll. Unbirthday foi traduzida em portugus para "desaniversrio", bela palavra para significar um belssimo no evento. E, por falar em belo, a escritora Ana Miranda deu o ttulo de Desmando ao romance em que narra a sina de uma rf portuguesa enviada  fora ao Brasil da poca do Descobrimento para servir de esposa a um dos desbravadores da terra. "Desmundo"  mais que fim do mundo;  o mundo ao avesso.  o que aguarda, no romance, a inocente Oribela. H bons exemplos mais antigos. No livro Roteiro de Macunama, de 1950, o crtico M. Cavalcanti Proena escreveu que o personagem de Mrio de Andrade resumia as "desvirtudes nacionais". O prprio Mrio de Andrade engendrou por sua vez outro oportuno des ao lamentar, num poema (Louvao da Tarde), a "ptria to despatriada". 
     Desvirtudes nacionais e despatriamentos da ptria continuam em cartaz, 87 anos depois da publicao de Macunama e setenta depois da morte de Mrio de Andrade, completados neste ano, mas no  disso que se trata aqui  por que raios,  insistente leitor, o colunista teria sempre de afundar no mar de nossas misrias pblicas? Refugiemo-nos nas palavras. O tema de hoje so as que portam o prefixo des, comeando com as inventadas mas no se esgotando nelas. O exmio criador/recolhedor de palavras que foi Guimares Rosa espalhou por suas obras, entre muitas outras, "desamigo", "desendoidecer", "desdormido", "desexistir", "destriste", "desfeliz", "desviver", "desfalar". No precioso livro O Lxico de Guimares Rosa, da professora Nice SantAnna Martins, registram-se exatas 230 palavras com des, sinal de que o des  uma tentao irresistvel para quem gosta de brincar com as possibilidades do idioma. At "desmim" Guimares Rosa inventou. "Querer mil gritar, e no pude, desmim de mim mesmo, me tonteava, numas nsias", diz Riobaldo, no Grande Serto: Veredas. 
     O des traz em si a atrao anarquista de pr o mundo de cabea para baixo. Mesmo as palavras em des perfeitamente acomodadas  lngua, e acolhidas nos dicionrios h muitos anos, nos chegam com novo vio quando nos detemos a examin-las. A uma famlia melanclica pertencem "desamor", "desventura", "desencanto" e a fatal "desespero", ao inverter o alto significado moral de "amor", "ventura", "encanto" e "esperana". "Desassossego" vai no mesmo caminho. "Desentendimento"  mais bruta;  eufemismo para briga. Ao contrrio, de alto valor moral so "destemor" e "desassombro" ao opor-se ao temor e ao assombro. "Desatino"  humilhante;  perder o tino. "Desoras" s pode ter sido criada por um surrealista. Usa-se no sentido de "altas horas", mas na pura raiz etimolgica significa estar fora das horas  como assim, fora das horas? "Desasnar"  o inspirado sinnimo de aprender pela via de deixar de ser asno. 
     Uma ida ao dicionrio, onde dormem as palavras em estado de inocncia, revela maravilhas. O leitor no deve saber, como o colunista no sabia, que existe a palavra "desnamorar", assim como "desnamorado". A difcil arte do dicionarista revela-se em seu melhor na definio de "namorar" do Houaiss: "terem duas pessoas relacionamento amoroso em que a aproximao fsica e psquica, fundada numa atrao recproca, aspira  continuidade". Descontinuada tal relao, fica-se com a desconsolada figura do desnamorado, que se imagina desamparado, a desoras, desnorteado e desterrado de si mesmo, desfeliz. 

